sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Endeusamento do Inconseguimento




 Salete Simões 
Jurista





   Será que nos encontramos no fim da Era do endeusamento do inconseguimento? A ideia de que um eleito tem direito a um título irrevogável e é considerado um ser dotado de poderes especiais, estará a ser abalada?
   A democracia opera também por via da responsabilização dos governantes perante os governados,sendo que a mesma se dá através de sufrágio. Actualmente a responsabilidade política é um mecanismo retrospectivo, no sentido em que as acções dos governantes são julgadas a posteriori e é nas eleições que se encontra esse escrutínio.
   Não será hoje, esta avaliação do trabalho desenvolvido por um governo algo toldada pela desigualdade de papéis atribuídos, por tradição, a cada uma das partes na sociedade. Uns são os venerados e outros os que veneram, quer os primeiros sejam conseguidos ou inconseguidos, ou ainda tenham sequer tentado conseguir o quer quer que seja.
  Hoje a fidelização do eleitorado não passa pelo conseguimento das promessas eleitorais, mas sim por um ambíguo sentimento de fé, o que nos remete para os perigos da simpatia por figuras místicas, muitas vezes apenas projectadas no imaginário mediático, algumas até nunca escrutinadas por ninguém, que nos retiram livre arbítrio, em prol de regras ocultas ditadas por uma desconhecida e temerosa entidade.
  Não será melhor dirigirmo-nos para a infidelização do inconseguimento e deificar a nossa inata capacidade, na parte e no todo, de fazer melhor.