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terça-feira, 5 de abril de 2016

Dossier Banif Fase 2. Relatório de Contas e Sustentabilidade 2013: O que aconteceu?




Fig. 1 – Organograma do Banco em 2013


Fig. 2 – Estrutura de Accionistas em 2013

  Desde o início do Relatório de Sustentabilidade, logo na mensagem do presidente, percebemos como todo o relatório se vai desenrolar. Começamos com uma frase inicial que se promete promissora: “O ano de 2013 (….) foi um ano marcado por alterações estruturais, em que fomos capazes de superar, com sucesso, vários desafios extremamente complexos.”
   Falamos do ano em que o Banif inicia o seu plano de recapitalização, com o Estado a injectar 1.100 milhões de euros. Para além do Estado, também neste plano de recapitalização previa-se que investidores privados injectassem dinheiro no Banco. Esta recapitalização privada, só ficou concluída em Junho de 2014, sendo de 450 milhões de euros.
   Para além disso, também se iniciou um Plano de Reestruturação, em paralelo, chegando o Banco a ultrapassar o teste de mercado, após claro, a recapitalização e a reestruturação do mesmo.
   Bem, mas a mensagem do presidente, Luís Amado, finaliza-se com uma frase: “A forma como fomos capazes de superar os desafios que enfrentámos foi, uma vez mais, uma demonstração do valor económico e social que o Grupo desempenha na economia e no sistema financeiro português. Este facto permite-nos encarar com optimismo uma nova fase que agora se inicia”.
   Parece-me claramente distinta, toda esta “segurança” apresentada, em contradição com aquilo que depois vem a ocorrer. Também as suas declarações na Comissão de Inquérito são bem contraditórias com esta mensagem que tenta passar, no documento escrito na altura.   
  Mas na realidade pelos vistos nem tudo estava assim tão bem, e mesmo com a recapitalização, tapou-se um buraco, mas não toda a cratera que se tinha formado. E também com as consequentes más reestruturações e com o “andar da carruagem”, tudo voltou como estava.
   Mas é do relatório de contas que saem os mais extraordinários números, que expressam que a “fachada” daquela mensagem não passa de uma “cortina de fumo”, para quem num relatório com 500 páginas, só lê as primeiras páginas.
  Em 2013, o produto bancário do Banif aumenta 40,5%, 194.1 mil milhões de euros, justificados pelo aumenta da margem financeira, pela diminuição nas comissões líquidas, pela alienação de títulos de rendimento fixo e na evolução dos activos imobiliários (continuando em terrenos negativos). Activos imobiliários estes, que foram as grandes “máquinas” de enterro do Banco.       
  Os custos de estrutura em 2013 diminuíram, passando para 236,8 milhões de euros. Sendo que desta redução de custos, a estrutura mais afretada, senão a única, foi a redução do número de postos de trabalho, despedindo na altura, só no ano 2013, 179 colaboradores.
  O Banco neste ano é objecto de uma auditoria pelo Banco de Portugal (BdP), que implicou revisão da imparidade da carteira de créditos do Banif, em 61,1 milhões de euros. É aqui que o Banco de Portugal, com estas auditorias, não só à imparidade da carteira, mas também noutras auditorias realizadas, inclusive pela PwC, Oliver Wyman, que o BdP tem consciência daquilo que se vai passando no Banif. Alguma vez Carlos Costa tomou alguma posição que fosse na sequência de fiscalização e protecção do Estado, relativo ao estado do Banco?
  O resultado líquido do Banif é de -470,3 milhões de euros. O activo líquido do Banco é mais uma vez inferior ao ano de 2012 (baixou 2,7% - 13.603 milhões de euros). Com o agravar da situação a exposição do Grupo ao BCE contínua elevadíssima, aumentando 273,5 milhões de euros, totalizando 3.077 milhões de euros no final de Dezembro de 2013.
Os recursos totais do Banco continuam com a sua estrutura de maioria nos depósitos, logo de seguida dos Bancos Centrais, da sua Dívida Própria Emitida e por fim dos Capitais Próprios (aumentados com a recapitalização do Estado e accionistas privados).
   Claro que o Rácio do Banco, mesmo depois da recapitalização continua insuficiente, mantendo-se nos 11,16% (Rácio Core Tier I), tendo como justificação, a amortização dos 150 milhões em CoCo´s, antes injectados pelo estado, e pagos nesta tranche.
    Como não podia deixar de ser, a margem financeira do Banif, desce, são menos 7 milhões de euros, que no ano de 2012, ou seja, a recapitalização trouxe custos aos contribuintes, e mesmo assim o banco não recupera. Anos e anos a fio de má gestão, elevam a que a solução encontrada foi a mais dispendiosa, logo com a recapitalização de 1,1 milhões de euros, e para além disso não resolveu o problema do banco, como viemos a presenciar e “sofrer na pele”, dois anos depois.  




sábado, 2 de abril de 2016

Dossier Banif - Explicar 27 Anos de Banif





1987Caixa Económica do Funchal
§      -Instituição financeira com maior número de balcões na Madeira;
§      -Passivo de 7 milhões de contos;

15 Janeiro de 1988Banco Internacional do Funchal, S.A.
§    -Falida a Caixa Económica do Funchal;
§    -Horácio Roque, Joe Berardo e mais investidores, formam o Banif (que junta a Económica do Funchal);
§   - Horácio Roque é quem fica com maior participação no capital do Banco;

1994 Plano
-   -Abrir novos balcões no continente;
§   -Lisboa abre o seu primeiro balcão;

1996 Banif compra o Banco Comercial dos Açores + Companhia de Seguros Açoreana


2010 - Direcção da Holding Rentipar
§      -Holding Rentipar detentora da maioria do capital do Banco;
§     -Horácio Roque morre;
§     -Teresa Roque, filha, toma o lugar de direcção do pai;
§     -Joaquim Marques Mendonça passa a ser CEO (2010-2012) do Banif;
§      -28 de Junho de 2010: Caixa Geral de Depósito anuncia compra de 70% da Banif Correctora,57, 8 milhões de euros;
        - Banif forma uma operação cruzada com o BES 1;

2012 Recessão Económica agrava-se (TROIKA)
§         -Equipa de Gestão muda: Jorge Tomé, CEO (2012-2015);
     -Luís Amado, Chairman Banif
§      -Caixa Geral de Depósitos compra os restantes 30% da Banif Corretora – 80 milhões de euros – detém a 100% a Banif Corretora;

2013 Comissão de Mercado de Valores Imobiliários, do gabinete do Ministro Vítor Gaspar, o governo anuncia a injecção de 1.100 milhões de euros.
§          -Janeiro de 2013 - Destes 1.100 milhões de euros, 400 milhões de euros em CoCo´s (títulos da dívida que em caso de incumprimento por parte do Banif, se podem converter em capital, acções) e 700 milhões de euros em Acções Especiais;
§   -Bruxelas dá luz verde provisória à ajuda estatal, acima referida;
§   -Abril 2013 e Outubro de 2014 – Equipa de Jorge Tomé manda 8 planos de reestruturação para a Direcção Geral da Concorrência Europeia (DGCom) e nenhum foi aceite;

2014 – “Empurrando com a barriga”
§      -Plano de Recapitalização do Estado (1.100 milhões de euros) – previa um aumento de capital por investidores privados de 450 milhões de euros - Concluído até Junho de 2014;
§  -Planos de Reestruturação chumbados (Equipa de Jorge Tomé) – até Outubro de 2014;
§  -António Varela, Administrador do Banco de Portugal, Administrador não executivo do Banif, representando o Estado, entre Jan. 2013 e Set. 2014, não realizou nenhum procedimento ou alerta do Estado do Banco;
§   -Comissão Europeia continua a realizar vários alertas, dirigidos para o Banco de Portugal e o Governo (PSD/CDS), mantendo-se a “conspiração de silêncios”
§  -31 Maio – PwC auditora começa a fiscalização do Banif;
    -Outubro – alerta o BdP para Riscos do Banif – Maria Luís Albuquerque mantém a “inércia”;


2015 Venda do Banco
§         -24 de Julho de 2015 – Comissão Europeia lança investigação profunda para averiguar a ajuda estatal;
§   -Banco em 2012 – 2015 – Fez uma reestruturação, fechando 60% das agências, tendo perdido 400 milhões de euros em depósitos;
§    -Jorge Tomé afirma numa entrevista que o banco detinha “uma exploração altamente deficitária”, “problemas de liquidez”, “rácio capital muito abaixo dos mínimos”;
§    -Maria Luís Albuquerque numa entrevista diz que “nenhum dos interessados (no Banif) apresentava uma proposta de venda”;
§   -Com a resolução destes perderam-se 120 milhões de euros, que penalizou em larga escala o rácio do capital do Banco;
     -Bruxelas lança um prazo de Resolução – até 20 de Dezembro;
§    -13 de Dezembro - TVI lança noticia sobre resolução do banco – houve corrida aos depósitos em mil milhões de euros em 5 dias;
§    -20 Dezembro 2015 – Banif é vendido ao Santader Totta por 150 milhões de euros;





domingo, 27 de dezembro de 2015

Banca, a força de intervencionar




   O sistema financeiro português está “doente”, e não pode continuar o tratamento com o dinheiro dos contribuintes, que tem servido como medicamento para os sucessivos Bancos falidos. A Troika, que tinha chegado ao aeroporto da Portela com o objectivo de “curar” a doença do país, incluindo a Banca privada, atacou os salários, o mercado de trabalho, o Estado social, e arrastou o país para um cenário macroeconómico pior que o que tinha encontrado. No entanto o sistema bancário continuou “como nada se passa-se”, ignorando os sinais dos vários Bancos semi-falidos.
   O Governo de Passos e Portas também ignorou o sistema financeiro, não tratou o problema a sério, a supervisão limitou-se, desde Victor Constâncio, a observar o caos que se foi gerando nos Bancos privados. O lamaçal é o contribuinte que paga, com os salários cortados, com o SNS deteriorado e a Educação a funcionar limitada.
   Os acontecimentos negativos no sistema bancário não são novidade neste país. Durante o período de “guerrilha interna” no BCP, foram descobertos problemas que fizeram cair o maior banco privado na bolsa. Até hoje o BCP continua a não conseguir recuperar a má imagem que Jardim Gonçalves deixou, e o problema financeiro que alimentou. Este caso não só prejudicou o Millennium, que cedeu o seu lugar de principal Banco privado aos Espirito Santo, como demonstrou que os Bancos escondiam muito “lixo por baixo do tapete”.
   Com o rebentar da crise mundial, o BPN e o BPP revelaram que a falha na supervisão. Os dois bancos foram vítimas de má gestão nas "barbas" do  Banco de Portugal, que não cumpriu a função para o qual está mandatado. O governo do PS nacionaliza o BPN e entrega o país nas mãos de uma das maiores crises financeiras que atravessou. Mais tarde, o BPN acabaria por ser vendido ao BIC por o valor irrisório de dois milhões de euros, quando o Estado, que assumiu os prejuízos, injetou milhares de Euros no Banco.
   Estes dois Bancos seriam a antecâmara para a queda ainda maior, o colapso do BES, que assegurou durante muito tempo o grupo da família Espírito Santo, não resistindo a queda da Holding, Rio Forte, arrastando consigo empresas como a PT, deixando um conjunto de lesados. Mais uma vez a Supervisão desapareceu, e um banco é intervencionado pelo Estado, ou seja, pelos contribuintes, ainda não conhecemos, com transparência, qual será a verdadeira dimensão do problema BES, após uma resolução que não agradou.
   Agora foi a vez do Banif, que cai sem que o Banco de Portugal tenha tido alguma cautela após os primeiros sinais. Os contribuintes são chamados, mais uma vez,  a intervencionar mais um banco com cerca de 3 mil milhões de euros, enquanto é vendido por apenas 150 milhões de euros. Com este colapso, Carlos Costa empurra para o anterior governo, e o anterior governo, pela voz da sua ex ministra das finanças, acusa falhas no Banco de Portugal. Os produtos tóxicos, como sempre, ficam com o Estado, os privados, como sempre, ficam com o lucrativo negócio bancário limpo, neste caso, o Santander Totta.
O Banif não será o ultimo a poder dar problemas, o Montepio apresentou algumas “dores” nas sua actividade bancária, que tem passado despercebido, mas já é alvo de guerras internas. Se a supervisão olhar da mesma forma para o Montepio, como olhou para os quatro Bancos colapsados, julgo que vamos ter mais um percalço no sistema financeiro.
    O sistema financeiro português apresenta a cada banco, milhares de milhões em buracos financeiros  deixados ao acaso, que depois o contribuinte paga, muito por culpa de gestões danosas. A Caixa Geral de Depósitos assegurou grande parte do financiamento público a essas “crateras” financeiras, o que levou ao seu prejuízo. Os accionistas, parte culpada do problema (são eles que escolhem, e asseguram, as má gestões) “fogem” para outros lados mais lucrativos, e os obrigacionistas assumem-se lesados,
   O caso Banif não teve a melhor resolução, mas também não foi a mais danosa, foi a que deu para fazer a quinze dias da sua liquidação, que seria a solução mais gravosa. A situação do Novo Banco, que ainda não é o transparente o suficiente para respirarmos de alívio quanto a uma intervenção feita com dinheiros públicos, pode ser ainda mais grave. A supervisão contínua impune ao assunto, sendo muitas vezes a CMVM (como no caso do Banif) a assegurar que as proporções em Bolsa não sejam mais danosas.
     Podemos estar em frente a um buraco gigantesco no sistema financeiro, que tem sido tapado com a deterioração do Serviço Nacional de Saúde, e com o orçamento da Educação. Decerto que o convite é para uma saúde mais pobre, uma educação mais miserável, e um sistema financeiro mais esburacado. O contribuinte, por mais que a ganancia deseja, não pode continuar a assegurar os problemas do sistema financeiro.