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terça-feira, 20 de agosto de 2019

Petição contra “tribunais privados” com mais de 4000 assinaturas portuguesas

Mais de 4000 assinaturas portuguesas na petição contra o ISDS

A petição europeia “Direitos para as pessoas, regras para as multinacionais”  - em cuja divulgação me tenho empenhado pessoalmente - já contém mais de 4000 assinaturas portuguesas.

A iniciativa europeia, que foi lançada em Janeiro, conta com quase 600 mil assinaturas em toda a Europa. Ontem ultrapassou as 4000 assinaturas de cidadãos portugueses.

Se é verdade que, em proporção do número total de assinaturas, o número de assinaturas portuguesas não pareça extraordinário, também é verdade que a população portuguesa é, na Europa, aquela que maior desinteresse apresenta por questões de política e cidadania, o que muito prejudica o país.

Por exemplo, muito poucos portugueses têm conhecimento de como o ISDS afecta as suas vidas, nomeadamente por via da relação entre este mecanismo e as chamadas “rendas excessivas” de que a EDP usufrui.

O valor das 4000 assinaturas é simbólico na medida em que é este o número que uma petição nacional tem de atingir para ser discutida em plenário na Assembleia da República. É um valor que muitas petições não conseguem atingir. É um valor que demonstra que existe suficientemente interesse por parte da população para que estas questões mereçam espaço no debate público.

Existe um sistema paralelo de justiça, chamado ISDS, que não é mais que um sistema de justiça privada que representa uma perigosa ameaça para o ambiente, a democracia e os Direitos Humanos. Apesar desta ameaça sobre o planeta e as pessoas, infelizmente poucos estão a par. É necessário promover a discussão pública deste assunto tão importante. Em grande medida é esse o objectivo desta petição: conseguir que se discuta uma questão tão importante para todos.

A rede europeia pretende continuar a recolher assinaturas, tendo também previstas outras iniciativas para alertar a população relativamente aos “perigos do ISDS”.

A TROCA - Plataforma por um Comércio Internacional Justo, de que faço parte, vai continuar a fazer todos os esforços para que as pessoas saibam o que é o ISDS e estejam a par de outras questões associadas ao comércio internacional que podem afectar as nossas vidas de forma mais indirecta, mas não por isso menos intensa.


Post também publicado no Esquerda Republicana.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Quero ter os inimigos perto









 A extemização da política está a crescer. Sem dúvida que hoje uma frase pode ter leituras diferentes que podem muito levar a ataques pessoais e profissionais. Na melhor das hipóteses o contexto pode levar apenas a tentativa de lápis azul e silêncio da opinião de terceiros. A muito custo o debate deixou de fazer sentido, agora tudo se resolve com um bom pare de ofensas.

Recentemente passei por isso. Por ter comentado de forma negativa uma a opinião de Daniel Oliveira, e por entender que DO tem uma posição sobre os animais que não é a minha, mas principalmente por DO ser ofensivo sempre que aborda quem gosta de animais, não sai daquela caixa de comentários sem uma boa ofensa. Tudo se resume ao meu sentido "fascista" e ao argumento dos dois gatos que o DO tem. O melhor foi a falta de argumentos ter levado a um bloqueio.

O texto de Bonifácio é mau, expressa o preconceito e a superior moral e intelectual de alguém que acha que o tom de pele e a comunidade a qual pertence são características para se inferiorizar outros, é a opinião dela. O facto de a opinião dela ter sido logo acusada de crime demonstra que a tolerância esgotasse nos ideais de cada um. Discordo completamente que a opinião da senhora seja um motivo para queixa, muito menos que se tente silenciar as pessoas que têm a mesma ideia. Ao contrário de muitos que partilham o mesmo espaço ideológico, eu prefiro que as pessoas como Bonifácio tenham espaço para dar a sua opinião. Da mesma maneira que quero que gente como eu use o mesmo espaço para contrapor e retirar a razão a quem pensa como Bonifácio. Não quero censurar os e as "Bonifácios" que por aí andam, sejam eles escritores no Observador, território de muitos, sejam eles os meros artistas que de vez em quando se vão ouvindo ou lendo pontualmente.

 O facto de partilharem ideias bastante antagónicas às minhas, e serem argumentadas com uma espécie de superioridade moral e intelectual, é me totalmente favorável porque posso rebater de forma a desmembrar um por um os argumentos que eles defendem. E se, ao contrário da maioria, lidar sem ironias, ofensas ou parvoíces, torna muito mais difícil que eles mantenham a defesa da sua linha de pensamento. Porque a melhor maneira de lhes quebrar a linha de pensamento não é lhes retirando o direito á palavra, mas lhes retirando a razão.

O conjunto de textos que se seguiram a desmembrar o pensamento da senhora Bonifácio. Textos coesos e com simplicidade suficiente para irritar João Miguel Tavares e o mesmo acabar por colocar os pés pelas mãos em textos desconexos. Esse conjunto de textos da esquerda á direita tornaram visível que o pensamento de Bonifácio não é recomendado no espaço político, e está longe da sensatez da nossa democracia. E eu prefiro assim, prefiro conhecer a Bonifácio, o Tavares e tantos outros, de forma a conhecer o "inimigo" nos olhos, do que lutar contra servidores escondidos algures em qualquer parte do mundo onde são despejadas notícias falsas. Quero poder "partir a espinha" a quem tem "espinhas" na opinião. É essa a essência da democracia.

Não sendo o presidente da minha eleição, não posso estar mais de acordo quando Marcelo afirmou que o extremo deve ser combatido de outra formas, não com extremizar de posições. E até mesmo a sua opinião foi atacada com ofensa pessoais ao Presidente. Mas é essa a posição de muitos daqueles que entendem que o espaço da democracia é a tolerância e o debate democrático.

 Se os mais moderados não aparecerem, estamos sujeitos a tornar a política tão agressiva que acabamos por ter uma opinião de Pacheco Pereira a ser considerada de fascista e preconceituosa. A sensatez na política é cada vez mais necessária.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

#aquinao












  A democracia tem tomado caminhos perigosos. O populismo ganhou armas e tornou possível o governos da génese, assumindo o poder em países que outrora era baluartes da coerência e democracia. De Trump a Salvini, o aparecimento da extrema direita sob capa do discurso fácil, bonito e de resolução rápida, tem sido premiado com disputas eleitorais renhidas e vitórias preocupantes.
   
    Em Portugal, felizmente, o efeito populista esvazia em figuras demasiado folclóricas e pouco convincentes na apresentação do seu discurso, incapazes de transformar o populismo em votos convictos. Apesar de André Ventura ser destaque pelo discurso  populista, e ser uma figura promovida por um certo tipo de comunicação social, dificilmente atinge a capacidade de eleger alguém para defender o seu programa pouco clarificado. Ainda existe um certo receio deste tipo de "Messias" político.

  Apesar dos grupos das redes sociais e os efeitos das mesmas tentarem promover o fascismo como a política de resolução da corrupção, o número de defensores da democracia, e a ausência do populismo mais organizado, continua a ser o suficiente para "abafar" os excessos nas redes sociais e os discursos de figuras populistas mediáticas.

   No entanto o aumento da comunidade brasileira tem gerado um certo desconforto patente nas redes sociais. Ao contrário que é apontado pela comunidade como xenofobia, os motivos do desconforto estão no respeito á interferência de parte da comunidade nos aspectos da vida politica nacional.

    Depois da vitória de Bolsonaro nas presidenciais brasileiras, e o perfil do actual presidente ser mais explicado, as páginas dos órgãos de comunicação social portugueses foram tomadas por o debate, elevado a discussão, acabando por terminar em desconforto com comunidade brasileira em Portugal. O principal factor para desencadear uma "batalha campal" nas caixas de comentários com sugestivos "convites" de regresso ao Brasil, foi Portugal ter sido o único país na Europa em que Bolsonaro ganhou nas urnas. Motivo suficiente para ataques á comunidade, que respondeu sempre com o preconceito com os brasileiros. 

   Não creio que seja o preconceito que move os portugueses contra a comunidade brasileira, muito menos o ataque é dirigido a toda a comunidade. O que uns justificam com o preconceito, justifico com o espírito democrático e o receio da influência "Bolsonarista" por cá. Não é difícil se perceber que o "currículo" comportamental do actual presidente do Brasil deixe margem para dúvidas que os brasileiros votaram movidos pelo preconceito que está enraizado no Brasil. Estamos a falar de um candidato que tem um discurso agressivo, fascista, racista, xenófobo, misogeno e de incentivo ao ataque verbal e físico aos adversários. Se isso não fosse o suficiente, a forma como decorreu a campanha bastante suja nas redes sociais, demonstrou que os brasileiros estavam dispostos a acreditar, e fazer acreditar, em alguém que se move por um conservadorismo com cheiro a ditadura.

  Bolsonaro sobe ao poder pelo combate contra a corrupção, quando o mesmo, e a sua família, vivem mergulhados na mesma. Caso aqui, caso ali, a corrupção parece ter presença constante no seio da família Bolsonaro. E os Brasileiros sabem disso. Por esse motivo, cada voto é um contributo para as consequências futuras a nível político no Brasil. A incompreensão dos portugueses surge pelo facto de quem vive confortável por cá entender que o melhor é ajudar a plantar por lá um regime ao estilo ditadura militar, e que a comunidade, ou parte dela, entenda que o espaço político português não seja do seu agrado. As sucessivas críticas aos partidos que formam o actual modelo governativo fizeram que muitos utilizadores das redes sociais, independentemente da sua linha ideológica, se "atravessem" no caminho das críticas da comunidade brasileira e os chamem a atenção sobre o teor das opiniões.
 
  Os brasileiros não podem utilizar o chavão da segurança e da luta contra a corrupção para desculpabilizar a eleição de Bolsonaro, mas não podem desculpar o insucesso politico que Bolsonaro possa ser com o desconhecimento sobre o passado do mesmo. Bolsonaro movesse há décadas, de eleição em eleição, no meio político e nunca contribuiu para qualquer bandeira que hoje diz defender, nem para o discurso político sobre o presente e o futuro do país. As suas atitudes no passado, e o seu relacionamento com outros deputados e jornalistas, tal como o discurso dirigido para as comunidades, são conhecidos pelo incentivo ao ódio. Os brasileiros sabem que Bolsonaro é movido pelo ódio às diferenças,e ás comunidades que ganharam os seus direitos. Sabiam que o seu discurso contra os mais fracos existia, sabiam que a ausência de carácter e personalidade, tal como um grau de cultura muito baixo fazem parte do perfil do actual presidente. Foi nisso que os brasileiros votaram, porque se revêm na maioria dos preconceitos do actual presidente, se revêm no seu discurso de ódio pelas comunidades e pela diferença. Infelizmente nem todos têm a capacidade de vender os seus bens e vir fugir para Portugal, onde pensam passar uma temporada em democracia, longe da pobreza de espirito que ajudaram a eleger. Que digam os nordestinos, olhados como inimigos naturais do actual presidente.
 
  É por estes motivos que o portugueses, apoiantes ou não da esquerda e do modelo governativo, criam um sentimento de desconforto com a comunidade brasileira, e principalmente com o facto da mesma tentar impor a sua visão clara de defesa dos preconceitos ideológicos, sociais e políticos numa sociedade europeia democrática. A demonstração do interesse na participação de acções criadas pela extrema direita (coletes amarelos) ou os discursos de ódio a comunidade gay, colado ao religioso, não são tão bem aceites cá como lá. Aqui ainda reina a tolerância, apesar de movimentações no sentido contrário.
 
   Antes de atribuirmos uma expressão "tacanha" ao que move os portugueses no desconforto com a comunidade, devemos ficar optimistas com o facto das redes sociais não suportarem apenas o saudosismo melancólico por velhos regimes, mas mover muita massa crítica no combate aos preconceitos e ideais que pretendem rasgar a democracia e gerar novos preconceitos, agravando os actuais. 
 
   Todos são bem vindos, mas não os discursos de ódio e preconceito. Porque votar em Bolsonaro não foi uma questão de crença, de progresso ou democracia, foi um teste no senso político no qual os brasileiros falharam.  Proteger a democracia não é só defender os ideais pontualmente optando pelo discurso mais suave. Defender a democracia é combater cerradamente aquilo que Bolsonaro representa. E se temos de ser intolerantes a quem defende o discurso, então o caminho é esse.

Fascismo não é democracia












 Todo o bom fascista sabe que precisa da democracia para atingir o poder. Mas em nenhum momento a sua participação na  democracia transformam um fascista em democrata, ou adepto da liberdade de expressão. Fazer acreditar o comum cidadão que oferecer tempo de antena a uma figura de índole fascista é liberdade de expressão, é a demonstração de ignorância sobre o que é um fascista e quais os seus objectivo políticos. Dar visibilidade ao fascista não é ser democrata, da mesma maneira que lhes dar espaço não é liberdade de expressão.

 O facto do PNR concorrer em eleições democráticas, porque a liberdade de actividade politica o permite ir a votos, não torna o mesmo num partido democrático, muito menos um albergue de gente intelectualmente disposta a aceitar a democracia. Apesar do pensamento ideológico ser reconhecidamente de extrema direita, o partido em termos organizativo descreve como patriota, o que não é crime. Crime é as afirmações feitas por os dirigentes que apontam inimigos pela cor, etnia ou país de origem, mas sempre protegidas pela liberdade de expressão.

A liberdade que o PNR tem para participar em actos eleitorais é a mesma que vai ao desencontro do seu programa político. Programa que no sufrágio eleitoral tem umas centenas pouco expressivas de eleitores. Facto é que o PNR concorrer em eleições democráticas não o faz, nem de perto nem de longe, um partido político com ambições democráticas. Apenas sabe que única maneira de impor um programa só pode ser através de sufrágio eleitoral, e por esse motivo usa as bandeiras da democracia e das liberdades cívicas para poder contribuir para o seu fim.

Quando o fascismo é atacado e "espancada a arte" do saudosismo da velha ditadura, os seus apoiantes escudam-se sempre na liberdade de expressão para manter a mensagem política de enaltecimento da ditadura. Gostar de Salazar é um direito, enaltecer um ditador é uma ilegalidade. A liberdade é um direito conquistado pela democracia, mas o discurso de salva à ditadura é condenado constitucionalmente, e não é liberdade.

 Quer os saudosos de bolso, quer aqueles que mergulham no ódio dos grupos das redes sociais, onde se escondem para destilar veneno,  são amantes de regimes fascistas  e por isso devem ser combatidos, denunciados e atacados (não fisicamente) do mesmo jeito que o fazem,  isolando os seus preconceitos e ódio latente dentro da sua cápsula de  ignorância. Gostar de Salazar e do que representou politicamente, expressando livremente os (de)feitos do mesmo durante a sua governação, não é liberdade de expressão. Não pode existir liberdade de expressão a quem acha que o direito de cada um em decidir o futuro e o espaço das suas convicções ideológicas deva ser posto em causa, muito menos se pode aceitar o combate aos direitos individuais de quem, em democracia, lutou para poder os usufruir em pleno direito a sua liberdade. Porque a liberdade de expressão faz parte de um espaço em que o respeito pela diversidade política e ideológica deve ser respeitada, e saudosismo fascista não fazem parte

O fascista não é democrata, não merece tempo de antena para apresentar a sua mensagem, muito  menos ver respeitada a sua linha política. Fascismo deve ser combatido como doença. Ou se usam os antibióticos políticos correctos, ou isolasse o transportador. Mas nunca deixar que a doença se espalhe como cancro. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A campanha contra os sistemas ISDS teve início hoje












Porquê assinar?

Se concordam com a causa, assinem e espalhem.


sábado, 12 de janeiro de 2019

Direitos Humanos primeiro! - Justiça igual para todos!





  







   Em Janeiro vai ter início uma fortíssima campanha da sociedade civil em toda a Europa.

No dia-a-dia verificamos que as ameaças ambientais se tornam cada vez mais graves e perigosas, que os salários reais estão estagnados,  enquanto as desigualdades de riqueza e rendimento se agravam, que a democracia se vai esvaziando e que em muitos países a extrema direita  está em clara e ameaçadora ascensão. Estas tendências não são alheias à forma como temos gerido a Globalização.

Os acordos de Comércio e Investimento são os alicerces da  globalização. Eles asseguram às multinacionais privilégios que obrigam  os estados a pagar pesadas indemnizações quando aprovam legislação  (ambiental, laboral, etc.) que ameace os seus lucros.

Por exemplo, em 2009, a companhia sueca Vattenfall iniciou uma acção contra a Alemanha a respeito da construção de uma central a carvão no rio Elba. O governo de Hamburgo aprovou legislação ambiental com o objectivo de proteger a qualidade das águas fluviais, antes ainda de aprovar o contrato final para a construção da central. A Vattenfall alegou que tais exigências iriam tornar o projecto inviável e que isso resultaria numa “expropriação indirecta”: exigia ser indemnizada em 1400 milhões de euros, não pelos danos que tinha sofrido, mas por ver goradas as suas expectativas de lucro. Em 2011, a cidade de Hamburgo acordou em reduzir os seus padrões ambientais para evitar os custos da indemnização. Poucos anos depois, a mesma companhia voltou a mover uma acção contra a Alemanha devido à decisão de abandono da energia nuclear, e fê-lo novamente contornando e ignorando os Tribunais alemães. Muitas vezes este mecanismo tem efeito sem que nenhuma acção seja movida: a mera ameaça é suficiente para intimidar o legislador.

Vale a pena acrescentar que não é apenas a legislação com o objectivo de proteger o meio ambiente ou a saúde pública que pode ser alvo deste tipo de litigância. Ficaram célebres casos em que a subida do salário mínimo foi pretexto para uma acção contra o Egipto, ou o facto do governo não ter evitado uma greve ter sido pretexto para uma acção contra a Roménia. Legislação para proteger serviços públicos, reverter privatizações, alterar a tributação, proteger os consumidores ou a privacidade, entre muitas outras, está sujeita à ameaça destes mecanismos.

Esta tendência  tem aumentado de dia para dia, e já chegou a Portugal onde  recentemente os accionistas da EDP ameaçaram os contribuintes  portugueses com o recurso a estes mecanismos. Abre-se um precedente  muito perigoso para as nossas finanças e para a nossa Democracia.

Por outro lado, as multinacionais usufruem de impunidade no palco internacional para várias violações dos Direitos Humanos.

No entanto, existe um movimento cada vez mais alargado de colectivos que quer inverter esta situação. Este movimento inclui associações ambientalistas, sindicatos, e muitas outras associações da sociedade civil tais como associações de defesa dos direitos humanos, associações animalistas, associações de defesa do consumidor, de defesa dos serviços públicos, de defesa do estado de direito, de defesa da saúde, associações de juízes e magistrados, etc.

Este movimento já conseguiu várias vitórias no passado. Conseguiu obter em toda a Europa mais de 3 milhões de assinaturas contra o TTIP (um tratado que iria expandir bastante os privilégios mencionados), mais do que qualquer “Iniciativa de Cidadania Europeia”. Conseguiu que mais de 4000 municípios em toda a Europa se declarassem “zonas livres de TTIP”, e conseguiu trazer milhões de pessoas para as ruas na Alemanha, França, Bélgica, Holanda, entre outros. Mais importante: conseguiu travar o TTIP, cuja assinatura estava planeada para 2015. Unindo-se a outros movimentos que têm alcançado importantes vitórias na luta contra a impunidade das multinacionais, o número de associações envolvidas passou das cerca de 500 em toda a Europa para as cerca de 2000 em todo o mundo.

2019 é um ano decisivo. É um ano em se pode tornar estes sistemas mais impactantes e irreversíveis, acentuando todos os desequilíbrios sociais e ambientais da globalização, ou optar por desmantelar estes sistemas e mudar os assim os alicerces da globalização. É o ano em que podemos juntos começar a construir um mundo diferente.

É essencial que a população europeia esteja a par daquilo que está em discussão e o papel de cada leitor é fundamental. A semana que antecede o lançamento da petição é uma oportunidade única para trazer este tema para o debate público.

Faço um apelo ao leitor a que promova a discussão e o alerta sobre estes assuntos, na medida da sua disponibilidade, vontade e meios.


Informação adicional:

1) Vários exemplos de casos ISDS
2) Sobre o ICS e ISDS
3) Sobre a debilidade dos argumentos pró-ISDS
4) Sobre a ameaça que o ISDS representa para o Estado de Direito
5) Sobre o MIC
6) Sobre a impunidade das multinacionais e possíveis respostas


Texto também publicado no Esquerda Republicana.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Críticas Universalistas ao actual Comércio Internacional

Suponhamos que um grupo discute qual deve ser o preço a pagar por um determinado produto. Uma parte das pessoas do grupo defende que o preço deveria diminuir, outra parte defende que deveria aumentar, enquanto uma terceira  parte defende que deveria ser mantido igual ao que era em anos anteriores.

Nesta situação, claro que podemos agrupar os que querem aumentar e os que querem diminuir o preço num grupo dos que querem alterações, em oposição ao outro grupo, o dos que querem manter o valor actual.
Porém, seria profundamente demagógico dar a entender que os que estão no mesmo grupo porque querem alterar o preço do produto (seja aumentá-lo  ou diminuí-lo) querem a mesma coisa, ou sequer algo parecido.

Na verdade, a ideia que apresentei é tão simples e inequívoca, que até me arrisco a ter insultado a inteligência do leitor.
No entanto, quando o assunto é o “Comércio Internacional”, existe quem tente esse rasteiro truque de retórica.

O comércio internacional pode ser realizado de diferentes formas e sob diferentes pressupostos. Em causa podem estar apenas taxas aduaneiras ou/e a harmonização das regulamentações sobre as mais diversas áreas ou ainda a forma de  lidar com eventuais disputas.
Estes instrumentos são diferentemente usados, consoante os objectivos.

Por outro lado, as circunstâncias actuais são muito claras: desde os anos 80 que os salários têm estado estagnados, as desigualdades têm aumentado de forma violentíssima, os direitos laborais têm-se deteriorado e a actividade económica tem exercido uma pressão insustentável sobre o planeta, sendo responsável por fenómenos como as alterações climáticas, o desaparecimento das florestas tropicais e o excesso de plásticos nos oceanos, entre outros. Como estes processos não têm acontecido apenas numa ou outra economia isolada, é possível concluir que a forma como temos gerido a globalização é irresponsável e deve ser repensada.

No entanto, a alteração da forma como se processa o comércio internacional pode visar objectivos e pressupostos completamente díspares.

Pode-se querer alterar o comércio internacional com objectivos Nacionalistas. Encarar o mundo como uma "competição" entre nações e o comércio como um jogo de soma-zero. Pode-se assumir que o prejuízo das indústrias estrangeiras constitui, por si, um benefício para a população nacional. E pode fazer-se  tudo isto num contexto de pouca consideração pelos Direitos Humanos, menorização dos desafios ecológicos globais, rejeição das abordagens multilaterais aos problemas da Humanidade e enorme falta de empatia pelos outros povos.

Mas pode querer-se alterar o comércio internacional com objectivos Universalistas. Ou seja, compreendendo que o comércio internacional pode ser fonte de prosperidade, desde que se evite fazê-lo de forma social e ecologicamente insustentável. Assumindo que o desenvolvimento das outras nações beneficia a nossa, mas que o desenvolvimento implica respeito pelos Direitos Humanos, pela Democracia e pelo Planeta. Defender soluções multilaterais para os problemas globais, mas escolhidas pelas populações ou seus representantes e não pela gestão de topo das multinacionais. Ter empatia pelos outros povos, e recusar contribuir para a sua miséria ou para a destruição do planeta que partilhamos.

Estas abordagens não são apenas opostas nos objectivos e pressupostos. Também diferem radicalmente nos resultados concretos. Tarifas destinadas a prejudicar a importação de painéis solares estrangeiros para beneficiar o carvão nacional, por exemplo, não têm lugar numa política de comércio Universalista, que, consistente com a consciência do desafio civilizacional que o aquecimento global representa, nunca deveria beneficiar a indústria dos combustíveis fósseis.

É por esta razão que, quando não ignorantes, são profundamente desonestas as tentativas de colocar todas as políticas de oposição ao status-quo no mesmo saco. O que Trump e outros nacionalistas querem para o Comércio Internacional é o oposto daquilo porque lutam os progressistas com consciência da insustentabilidade do actual sistema.

Se queremos um mundo menos desigual, mais justo, mais democrático, com respeito pelos limites físicos do planeta e pelos outros seres vivos, não nos podemos conformar com o rumo que a Humanidade tem tomado nas últimas décadas.

Podemos ser a favor do Comércio Internacional, sim, já que um Universalista reconhece no comércio o potencial de ambas as partes serem beneficiadas, e isso é bom duas vezes. Mas só acontece se estivermos perante um Comércio Internacional Justo, com respeito pelo Planeta, pela Democracia, pela Justiça, pelas Pessoas e pelos outros seres vivos.


Post também publicado no Esquerda Republicana.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

MIC

No início do ano escrevi neste espaço sobre o Tribunal Multilateral de Investimento. Agora, aproveito para partilhar um vídeo elucidativo sobre o mesmo assunto:


O vídeo é da autoria da Campact que gentilmente autorizou a sua reprodução no canal da TROCA - Plataforma por um Comércio Internacional Justo, criando assim a possibilidade de legendar o vídeo em português.

Post também publicado no Esquerda Republicana.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

JEFTA

Seria de supor que o "maior acordo comercial de todos os tempos" iria receber alguma atenção por parte da comunicação social em Portugal.

Infelizmente, não tem existido praticamente nenhuma informação, nenhum debate.

Pela minha parte procurei contribuir para um panorama diferente, e escrevi um texto que foi publicado no jornal Tornado, e que cito parcialmente:


«O JEFTA também ameaça os serviços públicos de diferentes formas. Uma delas é limitando a sua esfera às chamadas “listas negativas”[2]. Estas limitam severamente a capacidade de os governos criarem, expandirem e regularem serviços públicos ou reverter privatizações.

O JEFTA, tal como o CETA, tenderá a diminuir a estabilidade do sistema financeiro (se os mercados ficam mais integrados, o bloco com a política macroprudencial menos exigente irá acentuar a sua vantagem competitiva, criando um incentivo perverso para políticas menos cautelosas), e não se encontram nenhumas medidas no JEFTA para fazer face a esta questão, bem pelo contrário (até se reduzem os instrumentos disponíveis para combater a especulação financeira e se colocam obstáculos adicionais à reforma da estrutura bancária).

Vale a pena recordar também que o Japão ainda não ratificou convenções centrais da Organização Internacional do Trabalho, como a Convenção C105, relativa à Abolição do Trabalho Forçado, e a Convenção C111 (sobre Discriminação em matéria de Emprego e Profissão). Em particular, a recusa em assinar da convenção C111 deve-se a questões relativas à discriminação de género e a sua ausência é sintoma de questões laborais com impacto real na sociedade japonesa. O JEFTA traz, por esta via, consequências laborais indesejáveis para os estados membros da UE.

As lacunas mais graves do JEFTA estão no capítulo sobre comércio e desenvolvimento sustentável, que é ainda mais fraco que o seu análogo no CETA (já de si inaceitável). A estas questões, que ignoram o desafio civilizacional de combater o aquecimento global, e as consequências catastróficas que mal começámos a experimentar de forma trágica, podemos juntar as omissões em relação às madeiras e às pescas. O Japão não ilegaliza certas práticas consideradas inaceitáveis em quase todo o mundo desenvolvido e têm existido denúncias de empresas japonesas a devastar florestas protegidas na Roménia para vender a madeira assim obtida – este acordo alargará os mercados e tornará quase impossível garantir que a madeira que nos chega não tem origem neste tipo de práticas. O mesmo se aplica às pescas, uma questão que até pode ser mais sensível para Portugal (tendo em conta as restrições que já sofremos para uma gestão mais sustentável dos stocks, que assim ficam em risco acrescido).

[...]

Urge uma política de comércio diferente para a União Europeia e ela começa pela rejeição deste tipo de acordos que agravam os desequilíbrios e disparidades[3] que se têm acumulado nas últimas décadas, criando uma estagnação dos salários reais, uma insustentável concentração da riqueza, um esvaziamento da democracia e um agravar muito perigoso das ameaças ambientais. Rejeitar o JEFTA será um primeiro passo rumo a um Comércio Internacional Justo.


NOTAS
[1] Embora recentemente as instituições europeias tenham passado a designar o acordo comercial por “Acordo de Parceria Económica”, o que alteraria a sigla, preferimos manter a designação pela qual o acordo é conhecido.

Na verdade sabemos que as instituições europeias procuram evitar o uso de siglas que facilitem a comunicação entre os cidadãos mais informados e críticos destes acordos e a restante população. Parece exagero mas não é: OMG! TTIP, JEFTA, CEPA are DOA

[2] Com “listas negativas” só não estarão sujeitos à liberalização e privatização os serviços que tiverem sido explicitamente mencionados no acordo. À partida poder-se-ia pensar que algum grau de cuidado em relação à lista que consta no JEFTA poderia evitar lacunas graves neste domínio, mas a situação é mais complexa, já que a economia é tão mutável. Há algumas décadas atrás empresas como o Facebook, o Google, a Amazon nem sequer existiam e hoje correspondem a uma fatia muito considerável da nossa economia. Serviços como os prestados pela Uber ou Airbnb estavam longe de ter nascido. Tendo isto em consideração torna-se claro que qualquer lista que se crie hoje estará desactualizada e desajustada em poucos anos. No entanto, se estivermos a falar de listas negativas estamos também a falar de negar às populações a capacidade de ajustar livremente, consoante a vontade dos cidadãos, o papel do estado às mudanças da economia. Como agravante, nestes novos acordos há outra armadilha, a chamada cláusula “standstill”, que determina que os estados não podem retroceder quanto ao nível de liberalização (abertura de mercado) e desregulação que já atingiram; ou seja, o ponto actual da liberalização e desregulação fica cristalizado, proibido de retroceder.

[3] Estes acordos tão cedo desregulam de forma aparentemente indiscriminada como aumentam a regulação. O critério é sempre o mesmo e está longe de corresponder à defesa do bem comum ou ao respeito pela vontade dos cidadãos. O critério para se apertar a regulação ou acabar com ela é o de defender acima de tudo os interesses e conveniências das multinacionais, a quem estes acordos servem. Um exemplo elucidativo é o da propriedade intelectual, que tem sido reforçada nas últimas décadas de forma absolutamente desequilibrada, e tende a ser agravada por este tipo de acordos (tornando medicamentos mais caros, aumentando ameaças à liberdade de expressão, etc.).
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Post também publicado no Esquerda Republicana.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Caminhos do Brasil

  




    









    Os acontecimentos no Brasil não auguram nada de bom.  O prazo de validade da democracia  esgotou, e entre a justiça cada vez mais tendenciosa e as forças militares afetas a um estado menos democrático, estamos perante a intervenção dos poderes que deveriam manter a neutralidade nas decisões democráticas. Como diria Carlos Fino, o Brasil está num estado de transe que não promove nada de bom para o futuro dos duzentos milhões de habitantes daquele país.

   O impetchmant de 2016 foi o ponto de partida para um estado de coisas que se está a degradar de forma acelerada. A forma como a corrupção se transformou em puritanismo conservador foi o maior ato de hipocrisia numa democracia em pleno século XXI. Não havia provas de qualquer ato de corrupção cometido por Dilma, apenas se cozinhou durante o seu mandato um assalto ao poder por por o maior grupo de corrupção não eleita. Nas ruas, enquanto as notícias destacavam uma "luta contra a corrupção", o grito era movido pelo preconceito. Como é possível uma classe média obsoleta, racista, xenófoba e classicista sair para a rua com a vontade de acabar com a corrupção, e aplaude a corrupção que acaba de subir ao poder? Porque é que se silenciaram os bombos da justiça após Temer subir ao poder? Porque Temer é a imagem de uma classe média, e alta, que vive dos favores da corrupção. 

   Muito do que acontece hoje tem origem nas boas políticas de Lula. A ascensão de muitos dos que viveram acorrentados à pobreza promoveu uma classe média com maior preconceito que misturou com a existente que já vivia sob os piores valores que uma sociedade poderia ter. As bandeiras do apelo a uma intervenção militar em plena democracia, sabendo que um golpe militar é um retrocesso de anos de progressão social e económica, é o desejo de que os piores valores de uma ditadura se atravessem na democracia. 
  
    Os brasileiros apelam a Deus que intervenha com o objectivo de derrubar o direito da igualdade entre cidadãos do mesmo país. Um país que aclama a Deus o direito a negar o acesso a condições laborais, sociais, de educação e saúde a todos aqueles que a vida não promoveu o direito ao berço de ouro, prata ou platina. Um Brasil que se refugia em Deus para salvaguardar o direito de alguns praticarem a corrupção, da justiça tomar o direito a moldar a democracia mediante os interesses ideológicos. Um Brasil tão religioso quanto o tamanho do preconceito que possui.

   Entraram pela porta grande os mandatários do poder popular, homens que se julgam enviados de Deus para acabar com a promiscuidade dos mais pobres com direitos, com a promiscuidade dos moradores da favela com os direitos humanos, com a promiscuidade dos mais carenciados com direito a uma bolsa que sobrevive em condições mínimas de vida. Eles são pastores, anciãos e portadores da palavra de Deus que vêm combater direitos humanos, direitos de uma vida digna e direitos em serem seres humanos. O direito à homofobia, ao racismo, ao preconceito de classes, e principalmente o direito à casta de corruptos que se vai alongando no tempo e na história do Brasil.

  Dilma e Lula foram as primeiras vítimas, seguiram outras tantas vitimas como os recentes assassinatos de Marielle e Anderson, . É o direito de assassinar os direitos que promove a subida do homens de Deus, dos corruptos e da ambição de classes sustentadas com os prazeres da moralidade imoral. A seguir a tantas vítimas de golpes e assassinatos, que tiveram a ousadia de enfrentar os vícios instituídos, as próximas serão certamente o povo brasileiro que vai ser esmagado com o pior de um sistema. Basta observar Temer e companhia, Bolsonaro, entre outros, para ter a ideia que o Brasil vai ter de enfrentar o maior crime que um país pode sofrer. A tentativa de derrubar uma democracia, a tentativa de calar o direito da maioria decidir o seu futuro como país.

Estamos a assistir, em directo, à tomada da democracia por uma religiosidade imoral, pelos interesses do preconceito e pela casta mais corrupta que o Brasil já assistiu. E todos eles vêm em nome de uma religiosidade  pouco crente nas palavras igualdade, respeito, democracia e direitos humanos. E todos eles vão subindo com a ajuda do maior e melhor elevador social e político, daquele que todos julgam que não pode estar em causa, a Justiça.
Brasil em transe? Não, Democracia em perigo!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Poderá uma monarquia ser democrática?













"Monarquia constitucional ou uso de um termo infantil para se explicar uma ditadura encapotada" este poderia ser o título lógico, mas que não cabe nos cânones virtuais deste artigo.

Habitua-mo-nos a olhar para as chamadas "monarquias Constitucionais" e a apelidar esses sistemas de governo como fazendo parte dos sistemas democráticos de governo.
Como contestar que vários países nórdicos sejam monarquias constitucionais e sejam muito desenvolvidos e que essa seja a justificação para balizar uma forma de governo e desse modo aceitá-la.

Primeiro vamos lá desmistificar algumas coisas, nem todos os países nórdicos são monarquias, a Finlândia ou a Islândia são exemplos claros, e essas continuam a ser tão desenvolvidas como as que o são.

O desenvolvimento nada tem a ver com o regime político, monarquia, mas com a região em que se inserem, que lhes dá/deu uma relativa paz. A sua fraca demografia também ajuda o que é compensado com territórios amplos, com também amplos recursos, quer naturais quer outros como os educativos que têm disponíveis, por fim, o modelo social assente num estado forte, com um contrato social muito bem definido entre o que o cidadão paga e o que este recebe em troca. Outro fator muito importante, quase decisivo é, o climático, que provoca um foco razoável e uma resistência física e psicológica muito importantes para a adaptação em regimes económicos de serviços e/ou capital intensivo que hoje vivemos. Por fim e não menos importante, o protestantismo, dá uma mais valia cultural importante neste sistema económico porque incute a modéstia e a simplicidade em todos os níveis sociais, sem fatalismos e com uma crença absoluta no livre arbítrio humano em vez no que o destino religioso dará.

Reparem que eu não referi que estes sistemas são perfeitos apenas o são para uma economia baseada em serviços e em capital intensivo, se por exemplo, vivêssemos numa economia fabril, estes países eram secundários, aliás como o foram até ao advento da economia de serviços e do conhecimento que hoje vivemos.

E outro problema tem a ver com a aceitação das desigualdades, estes países estão longe de serem um modelo de tolerância face ao outro, são sociedades muito fechadas e com relações muito dúbias quando falamos desse tópico. Se for em relação aos seus, e aí depreende-se quem fala a sua língua e segue as suas regras, tudo bem, são deste modo sociedades de assimilação forçada, aliás nisso os portugueses e os irlandeses são muito parecidos (poderei falar na vantagem competitiva ou não que isso representa noutro artigo), mas a diversidade nessas sociedades deixa muito a desejar, em muitos campos condena-se a diferença e não existem ou são raros os módulos híbridos, nota-se isso no esforço que se faz para se tentar compreender o outro, mas para a sua assimilação e não para a sua aceitação como ele é, já nisso os portugueses e os irlandeses estão bem melhor que estes e a nossa evolução é bem mais pela tolerância do que pelo fechamento social. Em Portugal ou na Irlanda, partidos reacionários pró-desigualdades e populistas racistas como o Sverigedemokraterna (Democratas Suecos), Fremskrittspartiet Framstegspartiet (Partido do Progresso no poder na Noruega), Dansk Folkeparti (Partido Popular Dinamarquês que apoia parlamentarmente a atual aliança conservadora de direita no poder) ou o Partij voor Vrijheid (Partido para a Liberdade na Holanda), são difíceis de ter a força que têm nesses países. E tudo porque aceitam desigualdades naturais, a desigualdade por nascimento é uma delas, que culmina, na naturalidade da origem e deste modo é natural nessas sociedades por razões históricas, societárias e até identitárias essa aceitação e tem a ver muito com a realidade ambiental, histórica e de vizinhança que sempre foi conturbada e exigiu uma estratificação muito forte para que não houvessem duvidas de ação nas alturas extremas que eram constantes e que punham quase sempre a questão da sobrevivência como fator eliminatório.

Mas vamos ao problema que eu levantei: Será que uma forma de governo ditatorial como a monarquia, tenha esta o carimbo de constitucional, é democrática?

Vejamos a Democracia é o sistema que depreende entre outros valores que todos os cidadãos elegíveis podem ser candidatos, sob determinadas regras, igualmente em todos os órgãos de poder.

Podemos excluir por essa ordem de razão que o, representante máximo, aquele que é precisamente o que determina se o equilíbrio de poderes está a ser cumprido?
Será democrático um sistema que aceita que quem está há frente de um órgão que é, só por acaso o máximo, deve o ocupar não por ter sido candidato a esse e por isso ser um interpares, mas por ter nascido de quem nasceu e não ter tido nenhum mérito para estar e ocupar o lugar em questão?

Aliás o que há de democrático nessa aceitação e/ou nessa suposta aclamação!?!?!
Existem outras hipóteses a considerar, num regime monárquico, que não aquela que está ali, que é de apenas haver um cidadão candidato a um determinado lugar, porque nasceu por acaso daqueles cidadãos, que há partida são desiguais, pois nada de comum têm com os restantes?!?!?

Qual o nome que se dá a quem não é igual e se perpetua no poder sem opção de escolha em contrário porque se assume que a sua desigualdade é um fim em si mesmo e não algo renovado de forma regular e democraticamente?

Se responderam, Ditador, estão corretos, se responderam, Monarca, estão incorretos, e porquê?

Porque um Monarca, é sempre um Ditador, e a monarquia é uma forma de governo que assume um Ditador incontestável, esse Ditador passa o seu poder incontestado para o outro Ditador, só porque nasceu e/ou é descendente da uma família, que é a deste.

E o problema é que vejo muitos a criticar a forma de governo da Coreia do Norte e a esquecerem que a forma de governo que eventualmente defendem, a monarquia constitucional, nada difere desta!?!?!

E a pergunta que me poderão colocar é: Mas se são economias avançadas, algumas dessas monarquias e até democracias supostamente avançadas, porque é que referes que estas são uma Ditadura e não uma Democracia e fazes essa comparação com regimes tão atrasados economicamente e totalitários como essa Coreia do Norte?
Porque o princípio de governo é o mesmo, olhar para os méritos e demérito de uma economia é ter em consideração os problemas que esta tem, não quem e a forma de governo que esta detém. 

Por esse motivo e na Coreia do Norte, funciona um sistema puro e ditatorial monárquico, tal como por exemplo no Reino Saudita ou num país monárquico da Europa Ocidental, como o Reino da Noruega ou o Reino da Suécia.

E se pusermos em cheque a economia, podemos estabelecer uma comparação, será que o Nepal que é um país pobre e era ainda mais pobre quando era uma monarquia dita de constitucional, não sofreu económica e socialmente por ter tido reinados autoritários? Qual era a sua vantagem económica quando era uma monarquia constitucional? É que é, e usando este caso, o Ditador que muitas vezes tem uma função aparentemente decorativa que detinha realmente poder, no caso do Nepal os ditadores assumiram poderes reais e puseram a esmagadora maioria da população contra si, sendo derrubados violentamente em 2008. A linha que separa um ditador/monarca autoritário de um ditador/monarca menos autoritário não é cultural, nem regional nem sequer económica e/ou social, mas de virtuosismo hipotético de quem assume essas funções, porque por exemplo e num país vizinho ao Nepal, o Butão em que o sistema era ditatorial puro e com um rei autoritário, também em 2008, o detentor do cargo instituiu um sistema de monarquia constitucional, ou seja, uma ditadura menos autoritária, e se formos comprar, religiosamente, culturalmente, socialmente e regionalmente são países muito similares, em termos económicos pouco diferem, conquanto a relativa pacificação devido ao isolacionismo até aí existente do Butão criou uma ligeira superioridade económica deste último em relação ao Nepal, tudo dependeu do virtuosismo hipotético do ditador/monarca no poder.

Mas será que estarmos dependentes do virtuosismo de um ditador/monarca e/ou da sua família é arriscado? Como vimos com os exemplos referidos e antagónicos de evolução da evolução do Nepal e do Butão, claro que é!?!?!

Na Europa há países muito desenvolvidos economicamente que nunca foram monarquias, a Confederação Helvética é um exemplo claro e desde 1874, que é uma república democrática como hoje nos é apresentada e nunca foi uma monarquia, era até então uma república censitária (os eleitores detinham determinado rendimento e/ou ascendência), qual é então o virtuosismo desta forma de governo em relação à monarquia/ditadura seja esta constitucional ou não? 

É que nunca estará dependente de um eventual virtuosismo continuo de um eventual sucessor de alguém que não acedeu ao cargo naturalmente por nascer de outro e não por mérito.

O mesmo se passará com Portugal e outras democracias sem distorções, ou seja dependentes do eventual virtuosismo do ditador/monarca que ocupa o cargo máximo para que foi guindado sem nenhum mérito e que tem na sua mão a permissão para que esta forma de governo subsista. 

Se hipoteticamente um monarca/ditador dos ingleses assumisse o poder, o que o impediria, e a hipótese não é meramente hipotética, ocorreu no passado e a guerra civil foi a resposta, e no século passado no tempo da segunda guerra mundial, esta hipótese esteve a um passo de ocorrer e um golpe palaciano afastou o ditador/monarca com tendências mais autoritárias e grandes simpatias por Hitler, o então ditador autoritário alemão, por um ditador/monarca com tendências menos autoritárias e mais patriota/nacionalista/isolacionista, que serviu então não o nego de forma virtuosa como baluarte de resistência ao autoritarismo ditatorial que se impôs mais ou menos pela força na restante Europa continental

O recente autoritarismo de estado que vemos em Espanha, tem tudo a ver com a monarquia, a esmagadora maioria dos castelhanos, ou seja, habitantes das duas castelas e da capital desse estado federal ferreamente controlado pelos castelhanos e que aceitam naturalmente um regime autoritário, não tivesse sido nesta identidade nacional ibérica em quem o ditador autoritário, Franco, se apoiou para esmagar as restantes identidades nacionais ibéricas ocupadas por estes, num nacionalismo bacoco e identitário centralista. Já as restantes identidades nacionais ibéricas não aceitam a monarquia, pelo que o ditador castelhano, a que agora chamam de Felipe VI e já não de Franco, governa para os castelhanos que se revêm neste, para as restantes identidades nacionais ibéricas ocupadas, só uma minoria cada vez mais pequena é que apoia esta ditadura/monarquia, os choques são assim inevitáveis.

Por isso uma Monarquia nunca poderá ser democrática, e é legítimo no culminar da defesa de um estado democrático e/ou da implantação de uma democracia sem distorções que se afaste a família do ditador por qualquer meio, mesmo o violento, porque como já verificamos dependemos apenas e só de um eventual virtuosismo eventual desse ditador, o que por exemplo em Espanha, está a descarrilar para a inexistência desse virtuosismo e para o culminar de um estado cada vez mais musculado que não respeita a vontade política popular e se esconde atrás de um poder judicial que depende do ditador e que tem nula autonomia processual.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Entre mim e a política,

  




   








   O meu activismo politico começou muito cedo. Durante os velhos tempos em que as escolas tinham listas de pessoal com futuro brilhante no discurso político. Eu  juntava os  "revolucionários" de carteira, pessoal que se desconhecia numa escola pública elitista e dividida socialmente. Fazia parte do que consideravam a "malta da pesada".
  
   Não foi difícil com o meu espírito abraçar a causa partidária mais tarde. O espírito caseiro já lá estava e a força política já existia, jovem e cheia de vontade de crescer. Da minha adolescência revolucionária até ao Bloco foi uma questão de tempo. Aos 20 anos já era militante de "carteirinha". O ímpeto tornava capaz der defender a minha causa política. Não havia causa tão Kafkiana como aquela que eu aceitava.
  
   Tudo muda, os tempos e o estalo da realidade levaram-me lentamente a centrar o meu espaço politico e trocando a minha simpatia revolucionária por um punhado de avanços na democracia. Não gostava, tal como hoje ainda não gosto, do estado do Estado, mas estava a começar a compreender que as minhas ideias inspiradas em revoluções e iniciativas que relembram tempos diferentes já se distanciavam do caminho traçado. Já uma professora me dizia que a história só se repete porque os remédios adoptados no passado nunca fizeram efeito para o futuro.
  
   Depois de anos aos trambolhões com quilos e quilos de livros cheios de letras e números apercebi-me que a realidade revolucionária era mera utopia. Não é tão fácil levar uma sociedade a acreditar em ideais sem que eu próprio acredite neles. Certo é que me tornei moderado, a linha revolucionária que apregoava com meros quinze anos estava mais moderada. A utópica revolução dava há luz ideias de um processo de democratização maior e mais extenso.

   Não respirei muito tempo a minha militância no BE depois disto. A distância que nos separar já não era apenas uma linha. Dúvidas, soluções, medidas, propostas e caminhos, era tanto aquilo que nos separava quanto aquilo que me distanciava da revolução social e me obrigava a procurar soluções na democracia actual.
  
   Após a saída do BE não deixei o activismo , talvez um bocado mais participativo naquilo que realmente me deveria interessar como membro de uma sociedade onde o índice de participação se confunde com a militância politica. A minha veia sectária já tinha secado, abracei a causa das pontes, do diálogo e do "paz e amor" na vida política.

   Não sou um desistente por natureza, mas existe algo em que acredito profundamente, cada vez a vida partidária é me menos interessante. Cada vez me centro mais no essencial, nos debates acesos com um aperto de mão no fim, cada vez me vejo mais outsider de uma dinâmica partidária ligada às máquinas partidárias, aos grupos internos e à mistica partidária. A politica precisa de um novo cheiro, de novas formas de ser pensada e feita. Precisa de uma mudança de paradigma que deixe a democracia respirar de alivio do clima fraccionado.

    Já o meu pai dizia para despendiar energia em algo que valha a pena desafiar. Talvez já desconfiasse que ceder ao chamamento do activismo político. Estranho é que tão rápido percebesse porque é que ele nunca alinhou na vida partidária. Entendo hoje, que tal como ele, a vida partidária se tornasse tão desinteressante.

   A questão é, fará ou não sentido a militância? Talvez demore algum tempo mas acredito que cada vez menos sentido faz.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Multilateral Investment Court

  




   





   Os aspectos mais escabrosos e revoltantes do CETA e TTIP eram precisamente as propostas relativas à protecção do investimento: a criação de um sistema de justiça paralelo que curto-circuita os tribunais nacionais e propicia às grandes multinacionais a possibilidade de exigir indemnizações avultadas e condicionar a possibilidade dos estados protegerem o bem comum.

   A actual Comissão Europeia quer ir mais longe neste ataque à Democracia, e alargar o âmbito destes mecanismos de protecção do investimento. É por isso que se prepara para defender a criação de um Tribunal de Investimento Multilateral (MIC, de acordo com o acrónimo em inglês).

  Este documento do CIEL, S2BRosa-Luxemburg-Stiftung descreve o que está em causa de forma clara, e tão sintética quanto possível a um documento tão aprofundado:


    Para se compreender melhor o que está em jogo, aqui deixo um cheirinho das terríveis consequências dos mecanismos de arbitragem cuja expansão está a ser proposta, citando do documento acima:

Companies have even relied on investor rights to escape punishment after they were accused or convicted of crimes, including environmental pollution and corruption. For example, a factory in El Salvador poisoned a village with lead, killing some of its inhabitants, including children. When the government charged the company for violating its environmental laws, the company used its lawyers to threaten the government with an ISDS case, enabling it to avoid a criminal conviction. The proposed global investor court would enable cases such as these – because the rules on the basis of which they have been filed or threatened would not change.
These broad, substantive rights create a risk of financial liability that leads to a chilling effect on decision-makers. For example, in 2010, the Inter-American Commission on Human Rights advised the government of Guatemala to suspend operations at Goldcorp, Inc.’s Marlin Mine to prevent imminent human rights violations and grave environmental impacts. After a brief suspension, the Guatemalan government reopened the mine. Documents obtained through a freedom of information request reveal that the decision to do so was based in part on the government’s fear that closure would cause Goldcorp to “activate the World Bank’s [investment court] or to invoke the clauses of the free trade agreement to have access to international arbitration and subsequent claim of damages to the state”. Similarly, the government of Indonesia exempted Australia-based Newcrest Mining from a prohibition on open-pit mining in protected forests because it feared that the mining company would otherwise challenge the decision in arbitration. The mere existence of an international investor court could strengthen the force of this chilling effect.

   Não podemos continuar a discutir a «espuma dos dias» enquanto situações com esta gravidade estão em causa.
Os cidadãos têm de acordar para isto, quanto antes melhor, que ontem já era tarde.

Post também publicado no Esquerda Republicana.