quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Empreendedorismo ou chico-espertice




  







  Há aí uma moda, chama-se a qualquer novo empresário, "empreendedor", e a qualquer nova empresa, "stratups", são aquelas modas efémeras em que o tempo de duração é para aí de uma década e para estas acordo e viro-me para o lado que eu durmo melhor.

  Nesse mundo existe um grande evento que se realiza, felizmente em Portugal, a Web Summit, por uma organização empresarial lucrativa, que detém um nome que ainda não consegui apurar ao certo, mas que tem registo empresarial em Dublin, República da Irlanda, e que tem como principal e central modelo de negócio o de organizar conferências, realizando um total de 25 anualmente e tendo delegações em Lisboa, Hong Kong e São Francisco.

  Esse evento a que já fui duas vezes, a pedido de uma ONGA ambiental muito conhecida e de que sou representante em Portugal, recrutou mais de 2000 voluntários de 9000 mil candidatos, e que estão ao abrigo do estatuto de voluntariado, que está muito bem definido legalmente em Portugal pela Lei 72/98 de 3 de novembro regulamentada pelo Decreto-Lei 389/99 de 30 de setembro.

 E tudo seria normal se não fosse uma valente "Chico-espertice", primeiro a começar pelo horário dos tais "voluntários", 18 horas, ou seja cada voluntário tem que trabalhar em média 9 horas durante dois dias, sim foi o que leram, nove horas seguidas durante dois dias. Segundo o pagamento, inferindo-se deste modo que não há um voluntariado mas sim uma retribuição, mas já lá iremos, este é segundo os organizadores um passe de 4 dias no valor de € 1.500, exato, eles trabalham dois dias e recebem à borla o acesso para os restantes dois dias do evento. Terceiro, estes voluntários estão a fazer o quê? Trabalho de organização e receção dos convidados, de encaminhamento e apoio geral ao evento, são resumindo "o pau para toda a obra" e são coordenados pelos trabalhadores portugueses deste evento, sendo formados por estes ou outros nem isso, para desempenhar estas funções. Quarto têm seguro e se lhes acontecer alguma coisa, a empresa com sede em Dublin pode ser responsabilizada, a resposta é simples para as duas questões: Não!!! Quinto quem paga a sua estadia e transportes para o local do evento, resposta, os tais "voluntários", a única coisa que a organização lhes oferece é a refeição, num refeitório em que o tempo de espera supera o tempo da hora para almoço a que têm direito.

  Agora vamos lá à duvida principal, retiro destas as questões de duvidosa legalidade até laboral, que é as empresas enviarem trabalhadores, que às suas custas pagam a estadia, para serem "voluntários", não lhes descontando férias e exigindo em troca um relatório sobre o que viram, ou substituírem horas de formação aos trabalhadores por acesso como "voluntário" ao evento e concentrando-me nos "voluntários" puros: qual é o estatuto legal que detém e que caso lhes aconteça a si ou a terceiros alguma coisa, por exercerem essa atividade, e que possam ativar?

  Ao abrigo da nossa lei, não há nenhum!!!

  Porque só podem ser promotoras de voluntariado, as entidades públicas e privadas sem fins lucrativos, IPSS´s, Misericórdias, Casas do Povo e ONGD´s. Para além de que estes voluntários (sem aspas por o serem a sério) têm que ter seguro e sujeitam-se a uma série de deveres, por terem uma série de direitos também muito bem definidos.

  O próprio governo criou uma brochura em que explica quais os direitos e deveres de um voluntário e tem até um portal, ligado ao Conselho Nacional Para a Promoção do Voluntariado, que explica em detalhe, quem e como poderá promover o voluntariado e ser um voluntário.

  Então estamos sob a forma de Empreendedorismo ou de uma Chico-espertice?

  É que se fosse empreendedorismo, tínhamos a contratação por uma semana (acrescento mais um dia para a formação) com pagamento por recibo verde, as horas ou dias em que estes trabalhadores subordinados trabalhariam. E nada na nossa lei o proibiria, mas teria a empresa contratante que arcar, como é obvio, com custos inerentes das refeições, seguros ou transportes (ou não podendo isso não ser incluído). A nossa lei permite essa contratação e até se chama part-time e a essa prestação a que estão ligados direitos e deveres da parte empregadora, que depreendo que é o que a empresa com sede em Dublin, Irlanda do Norte, pretende não se submeter. Lesando não só o estado português que a acolhe e lhe dá subsídios, que considero justos pois são multiplicadores de investimento, mas que o lesa em largos milhares de impostos e segurança social que não paga quando usa figuras nulas e inexistentes como esta do uso de falsos "voluntários".    

  A nossa lei é uma das mais permissivas e liberais no trabalho "à peça" ou nestas formas de trabalho que atingem uma discricionariedade e um momento curto. Portugal até tem algumas dezenas de empresas que e legalmente contratam trabalhadores para eventos, alguns muito grandes e que me conste o trabalho profissional desses trabalhadores e a sua disponibilidade e profissionalismo é inexcedível, sendo muitos destes estudantes, e que aí sim, recebem de acordo com a sua função e o seu tempo de trabalho, tendo todos os deveres e todos os direitos a que a lei e o estado português os sujeita e lhes dá.

  Não se entende por isso esta fuga velada aos impostos através de uma Chico-espertice, que é o trabalho desses "voluntários" falsos, não somos um país sem lei nem roque! E este Governo fica muito mal, quando não dá a esta organização até um acompanhamento na organização deste e doutros eventos, de modo a tornar estas funções em legais e que tenham retorno para a economia, mas que preferem fechar os olhos e deixarem estas empresas usar desta Chico-espertice, como são as promotoras não só da Web Summit como também a do Rock In Rio.

  Uma nota final aos pais e aos tais voluntários que caem nesta Chico-espertice, não há dinheiro do mundo que vos pague um acidente que tenham a caminho ou na volta para o tal evento ou num que tenham no mesmo, o mesmo se passa com a responsabilidade que possam ter se provocarem danos a terceiros por exercerem essa função sem seguro. Não há também nenhuma vantagem curricular em pôr isso num Currículo Vitae, pois juro-vos que isso nada conta ou contou, quando já fui alguém que olhei para currículos para contratar alguém. Por fim, se querem fazer contactos há milhares de bilhetes baratos e até bilhetes menos baratos mas que podemos e devemos pagar com o nosso bolso e que serão bem mais apreciados se saírem do nosso esforço e trabalho e aí sim estão a ser futuros Empreendedores e não futuros Chico-espertos.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O lirismo da posição do PS sobre a Catalunha!




  Mário Soares há quase 3 anos (14 de Novembro de 2014) e sobre a Catalunha, referiu numa crónica que tinha no Público que, ou a Espanha percebia que a opção do PSOE que então apresentava a solução de um estado federal aos eleitores era a única viável, e cito-o: "Como disse Felipe Gonzalez, é a altura de Espanha perceber que deve ser um Estado federal (...) Aliás, o atual secretário-geral do PSOE, Pedro Sánchez, que é uma figura de extrema inteligência, tem dito o mesmo."
  
  Ou que e caso contrário, estas regiões e os seus cidadãos nos seus parlamentos autonómicos, e cito-o: "(...) serão obrigados a ir muito mais longe. (...)"

   Link para essa crónica do jornal "Público", aqui.

   O PSOE foi copiosamente derrotado, na área Castelhana de Espanha, nas eleições ocorridas em 20 de Dezembro de 2015, que votou massivamente no nacionalismo centralista proposto pelo PP. E na área não Castelhana, o PP ganhou mas não teve a esmagadora maioria dos votos.
  
  Foi notório que o PSOE apenas venceu na Andaluzia e na Estremadura, e que o PODEMOS e os partidos nacionalistas venceram no País Basco e na Catalunha relegando o PP e o Ciudadanos para lugares a roçar o irrelevante.
  
  O PODEMOS apresentava e apresenta em relação a este assunto a capacidade de os cidadãos poderem ser consultados neste âmbito e beneficiou notoriamente de muitos votos nacionalistas que achavam que se este ganhasse nas eleições gerais iria abrir a porta a referendos de independência.

  Após o impasse, e em 26 de Junho 2016, dá-se outro pleito eleitoral, e o projeto do PSOE por uma Espanha Federal, foi ainda mais rechaçado, desta vez nem a Estremadura nem a Andaluzia subscreveram o projeto de uma Espanha Federal, apresentado de novo pelo PSOE liderado por Pedro Sánchez.

  De novo o eleitorado tanto da Catalunha, como o País Basco rechaçaram os partidos que subscreviam sem reservas o centralismo castelhano. Os dois partidos, PP e Ciudadanos, nem a um quarto dos votos expressos (mais ou menos 24%) chegaram na Catalunha e no País Basco nem a fasquia dos 15% conseguiram ultrapassar.

  Noutras comunidades não castelhanas, como a Astúrias, Galiza ou Canárias, o cenário foi mais ou menos igual, com o PP a ganhar mas a ficar de novo muito próximo do PSOE, o lirismo de Pedro Sánchez foi assim batido diante da realidade dos resultados eleitorais nacionais.

  E se este foi batido em Espanha, porque é que em Portugal, o PS acha que essa é a opção que pode existir em Espanha e que tanto a Catalunha, como provavelmente e de proximamente, o País Basco, não iriam declarar a secessão e a independência?

  Estará o PS de Portugal a pensar que os Catalães e os Bascos iriam continuar a tolerar afrontas e a abdicar do que sempre quiseram, só porque isso é lhes vedado constitucionalmente? O que vale mesmo a Constituição quando e esmagadormente a população quer ser consultada e com grande probabilidade é maioritária à possibilidade de ser independente!?!?!

  Não era vedado a Timor Leste, a independência na nova e democrática República da Indonésia, que após Maio de 1998 era já uma República sem ditadura e multipartidária, e que, só após muita pressão internacional, é que em 30 de agosto de 1999, esse referendo foi permitido.

  Já me informaram, vários camaradas e alguns com responsabilidades dentro da estrutura do PS, que os casos não são comparáveis. Os dois casos, lamento mas são, tanto o País Basco como a Catalunha foram ocupadas sob o regime de Franco e sofreram um genocídio cultural, político e demográfico desde outubro de 1937, o País Basco e 23 de janeiro de 1939, a Catalunha.

  Dezenas de milhares de políticos, guerrilheiros republicanos independentistas, simpatizantes da independência e até professores das línguas catalã e basca, foram fuzilados sem nenhum julgamento e muitos milhares continuam desaparecidos ainda, nada que a Indonésia não tivesse feito também em Timor Leste.

  O mesmo se passou com a tentativa de castelhanizar forçadamente essas comunidades, com mais sucesso na Catalunha do que no País Basco, onde esse sucesso apenas se verificou parcialmente em Navarra, uma comunidade criada ficticiamente para "partir a espinha" ao nacionalismo Basco mais moderado nessa área. Milhares de cidadãos da Andaluzia, de Múrcia e da Estremadura foram "transferidos" com oferecimento de trabalho e morada, para a Catalunha (essencialmente à volta de Barcelona), Navarra e o País Basco. Nada que a Indonésia também não tentasse fazer em Timor Leste.

  E por fim veio a tal transição democrática, com uma pré-assunção que as comunidades catalãs e bascas se iam esquecer de anos de opressão e ditadura e apoiar de cruz esta nova versão de um ditador em forma de Rei e com um parlamento centralizado em Madrid e não um ditador total, como era Franco, sem parlamento e também de Madrid.

  Pois mas vejam lá, no referendo que aprovou a constituição espanhola de 1978, tanto a abstenção com os votos contra e em branco, as três posições assumidas pelos partidos nacionalistas catalães e bascos, foi massiva.  E para vos dar uma ordem de grandeza em alguns casos, o País Basco e o interior da Catalunha (sem Barcelona onde se concentram os emigrados referidos) a abstenção dobrou face à média nacional. Acham mesmo que a população original, fortemente independentista, da Catalunha ou o do País Basco, tinha esquecido em 1978, 39 anos e 41 anos (respetivamente) de total e absurda perseguição e impunidade franquista, e que estavam dispostos a aceitar outro poder centralista de Madrid, fosse este mais ou menos democrático.

  E o problema do País Basco evoluiu para o terrorismo e na Catalunha isso só não ocorreu porque a Esquerda Republicana Catalã e franjas mais radicais, que agora são representadas pela CUP sempre tiveram liberdade de atuação, a mesma que agora lhes negam!!! Para além de que o nacionalismo catalão sempre foi mais passivo por ser agrário e conservador (e ser baseado num interior rural muito católico) do que militante e operário como o Basco.

  Timor Leste e o País Basco e a Catalunha são comparáveis e não existe, lamento, nenhuma justificação para que o PS de Portugal não subscreva a ideia do seu fundador, Mário Soares, que seria e será inevitável a independência da Catalunha e do País Basco, caso e repito a citando mais uma vez a sua crónica, que: "Como disse Felipe Gonzalez, é a altura de Espanha perceber que deve ser um Estado federal, porque caso contrário serão obrigados a ir muito mais longe."

  O PS apoiou o direito à autodeterminação de Timor Leste, e bem porque a nossa constituição assim o defende, dizer que este processo e outro que agora se apresenta, nada tem a ver é roçar a má fé e sinceramente por a cabeça debaixo da areia, como uma avestruz.

  Por isso o PS de Portugal está a perder o comboio da história e tenta com maquilhagens absurdas se comprometer com aquilo que é um puro lirismo do PSOE, o processo constitucional nada trará, pois tanto o PP como o Ciudadanos irão obstaculizar qualquer tentativa de se referendar as autonomias e qualquer tentativa de se poder, sem sangue, conseguir uma independência. E sim este haverá e será inevitável e depois não me digam que não foram avisados, quando o extremismo recrudescer, talvez em Madrid, pensem que chegou a altura de negociar.

  Lamento eu não sou lírico, leio a história, interpreto-a e sob esta decido em função do que existe, das posições que já tivemos em casos semelhantes e do que deve ser a nossa posição correta. Se o PS não o quer, tudo bem, eu tal como Mário Soares não ficarei indiferente ao inevitável.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Ética pura, não, dura

  

    Ora a minha história começa com o meu regresso a terras Lusas. Encontrei por a terra amigos meus, boa gente, malta socialista ferranha de Loures. Pessoal que sempre foi figura de trabalho afinco nos problemas do concelho e da freguesia (dizem eles), rapaziada de bom coração. Quando dei por mim, lá estava eu na amena cavaqueira a tratar de assuntos da política séria e honesta. Comecei uma conversa intressantissima sobre a Catalunha. A coisa durou menos tempo que os preços do combustível sem aumentar. Visões diferentes? Infelizmente não, era apenas uma visão e duas ausências. Nada que não seja típico de pessoal apelidado de "filhos da terra", gente que passa os anos a esfregar na cara em trezentos e cinco cargos ocupados em associações, bombeiros, clubes, grémios e listas para a Câmara ou Junta. Resta dizer que quase nada deu resultado, muito pelo contrário. Mas são coisas para por de parte. 
  Com tanta opinião silenciosa, ou "porque sim" que ouvi, lá tive de mudar de conversa. Estive fora, ouvia e lia sobre os candidatos à Câmara municipal de Loures , mas desconhecia alguns. Lá me informaram que o Bernardino ficou, e ganhou, e que quase todos os outros mudaram. Quando dei por mim, estavam eles a elogiar a Sónia. Boa rapariga, vereadora com um pelouro difícil e   uma mulher de coragem. E na minha opinião até acredito. Mas quando falámos de Carlos Teixeira, as expressões faciais mudaram, e as criticas foram extensas. Desconheço se é na totalidade do partido, espero que não, mas ter criticas ferozes  é que não percebo. De desculpas em desculpas lá vieram os argumentos gastos, família e a despesa. Tive de perguntar - "Mas a despesa é sempre má?"- entupiram, não me souberam responder, apenas escuto um volte-face à conversa - "Agora estamos bem, o Ricardo Leão mudou o PS em Loures" - estranhei! O PS em Loures continua o mesmo, as mesmas caras, principalmente aquelas que ganharam protagonismo com Carlos Teixeira, e pelo que percebi, o Ricardo Leão também é o mesmo, o que foi  vereador. Mudou? Não percebi onde.
   Não percebo as desculpas em torno da dívida,  família,  gato e  cão. São pouco construtivas e dão um ar de desmérito do trabalho feito à pessoa que durante 12 anos foi Presidente do Concelho e protagonista do maior desenvolvimento do município. Talvez tenha encontrado alguém que se tenha esquecido do quão rural era Loures à entrada do século XXI, e quanto desenvolveu e se tornou um Concelho estratégico. Mas Carlos Teixeira falhou? Óbvio, mas político que não falha não é político, é uma almofada sem ideias. Medina falhou, Costa falhou, e não é por esse motivo que perderam o mérito de serem pessoas capazes, tal como Carlos Teixeira o foi.
   Falar sobre a família e a dívida? Perdão! Prefiro falar sobre trabalho, porque se falarmos sobre família, Carlos César tornaria-se o centro do assunto. Mas se insistem, falemos de profissionalismo. Dívida? Em que parte do mundo vivemos? Um concelho que saltou para o mapa pelas melhores razões, não por as afirmações dos Andrés Venturas desta vida, é porque tem um curriculum de trabalho feito. Sem dúvida quem criou o que é Loures é hoje, um concelho moderno, urbano e citadino foi Carlos Teixeira. A dívida é o que tinha de ser, ou agora temos "experts" que conseguem tirar um concelho da ruralidade do século 19 e tornar atrativo para negocio, para viver e trabalhar é feito em sonhos?
  O partido socialista só tem razões de sobra para se orgulhar do trabalho de 12 anos, mas prefere deitar fogo ao passado no jogo da culpabilidade alheia. Tornar Carlos Teixeira em uma espécie de "Persona Non Grata" no passado do partido.
   Podemos falar de familiares, fazer uma reflexão sobre eram ou não qualificados para talhar a sua função. Talvez aí possamos ter uma ideia mais alargada sobre o que convenceu a recrutar, talvez. Talvez nem seja como pintaram. O que ficou então de trabalho? Muito! Será então que o dinheiro foi bem gasto? Talvez sim, talvez não. Mas que Loures apareceu no mapa com mérito, apareceu. Foi ético colocar um familiar? Em princípio não, mas foi ilegal? Não! Mas então e ocupar três cargos, mesmo com a legitimidade democrática? Não será também pouco ético? Talvez, mas também não é ilegal. O que permite a qualquer outra pessoa ter uma leitura Kantesiana sobre os valores éticos na sociedade, que se transferem para a política.
  Pois é, já que afirmam as vozes da existência de falta de ética de Carlos Teixeira, então resta relembrar os meus amigos socialistas que outras formas de não partilhar a ética existem,  exemplo esparramado o PS ter um presidente da Concelhia,  também Presidente da Assembleia Municipal de Loures,  também é Vogal na Junta de Freguesia de Sacavém que por sua vez, por acaso, também deputado na Assembleia da República. Não é ilegal, mas não será falta de ética e motivo para que a política seja vista de forma menos adequada? Óbvio que sim! Porque das duas uma, ou estamos perante uma brilhante figura política, o que não discordo dada a experiência "profissional", ou estamos perante alguém que entende que a sua Concelhia não está munida de gente capaz, e por conseguinte o país. Não vislumbra ninguém melhor que ele para ser em si a soma de todos os cargos. Poderíamos, eventualmente,  chegar a uma terceira possibilidade, mas seria tirar o mérito à figura em questão.
  Portanto, se os socialistas têm por muito se queixar do legado deixado por Carlos Teixeira, a quem muito deve Loures, então muito se pode queixar da má imagem de Leão. Porque pode não ser pago a 100% por as funções partidárias, na Assembleia Municipal e Vogal na JF, até pode ser um brilhante político, mas não deixa de ser pouco ético perante um país que vive constantemente a criticar os seus políticos. Enquanto isso Carlos Teixiera, apesar de ter sido candidato a Lisboa, de forma independente, mas continua a fazer a sua vidinha sem correr atrás de Vaga.
  Deu-me uma tremenda vontade de voltar a escrever. Um abraço à equipe.

domingo, 5 de novembro de 2017

Catalunha, um cruzamento com a democracia

 
 



   








   A história cruza-se diversas vezes com a vontade da autodeterminação do povo Catalão. Por desconhecimento ou incúria sobre o assunto é que se opina apoiado nos argumentos que têm sido hoje utilizados, como o financeiro. Os sentimentos não são de hoje, muito menos o independentismo é um sentimento fresco para o povo Catalão.
   A história da Catalunha é recheada de desconfianças quanto a Espanha, tentar fazer da Catalunha,e de outras regiões autónomas, Espanha, e julga-los como espanhóis é não respeitar a diferença cultural, linguística e histórica que divide todos os territórios. Não são iguais, em nada, são diferentes em tudo.  Por esse motivo que todos os territórios autónomos de Espanha têm desejos decisão do Reino, vontade de se tornarem Republicas independentes. Querem ver respeitado o legado como povo, a sua história, as suas tradições, e dificilmente o sentem anexadas a um país que não respeita o  plurinacionalismo que existe no Reino de Espanha, uma Espanha demasiado franquista. Laivos de uma ditadura que vive nos hábitos e condutas políticas do atual executivo.
   Ao contrário dos milhares utilizadores lusos das redes sociais, e do comentário político, não possuo posição. Não tenho que ter qualquer posição sobre um assunto que não me diz respeito de forma direta. Mas infelizmente continuamos a assistir a uma espécie de "cusquice" na "casa alheia" baseadas em posições sobre algo que não nos diz respeito, abraçados a uma argumentação fraca e absurda.
   Tenho uma visão pessoal  sobre o assunto, mais europeia, menos nacionalista. Sei que o atual modelo europeu e a sua génese ideológica não permite qualquer aproximação ao meu modelo. Um modelo capacitado com maior respeito pelas nacionalidades existentes na Europa, como a Catalã. Mas acredito mais nas mudanças europeias, que têm por base maior democracia, do que em soluções oriundas de Madrid. Demasiado espírito franquista.
  É óbvio que não apoio qualquer solução que não procure a legitimidade e legalidade.Não acredito em soluções que se baseiem na violência desproporcional e gratuita por parte das autoridades Espanholas. Vindo do atual executivo espanhol, é natural esse tipo de atitude, mas não pode é ser aceite com a mesma naturalidade por os países democratas, onde se inclui Portugal. Muito menos que estes países ignorem de forma ridícula a forma como a justiça e o poder político em Espanha funcionam de mãos dadas.
   A única solução é negociar, respeitar e sentar à mesa procurando de consensos, não é asfixiar a democracia como fez a policia no dia 1 de Outubro na Catalunha. O impasse é entre a legalidade e o respeito pela autodeterminação dos povos, algo que consta na constituição Portuguesa e que o primeiro ministro deveria ter em conta. É um impasse complicado de resolver para quem quer manter a legalidade e os valores democráticos ao mesmo tempo. Por um lado a legalidade da Constituição Espanhola, e por outro a Autodeterminação do povo Catalão.
   Infelizmente os responsáveis por esta situação deveriam ser melhores que os atuais. Quer Rajoy, quer Puidgemont, não estiveram à altura dos acontecimentos históricos. Deixaram ambos a merecer quanto à sua capacidade política e intelectual para conseguir uma solução em conjunto. Ambos colocaram uma negociação possível em algo quase impossível de se concretizar. A solução não é possível enquanto Rajoy estiver no governo, enquanto o PP não apagar o seu passado e a sua índole franquista.
   Enquanto isso não acontecer, por cá ficamos em conversas de argumentos frágeis e ignorância  a cargo dos Unionistas do Burgo, como as grande genialidade (ironia) de Clara Ferreira Alves.

Extremar posições e abortar os valores, nova condição política?

  




   





    Desde muito novo que sigo a política. Tenho alma de quem vive no seio do debate democrático e saudável, mesmo com diferentes prespectivas e ideologias. Fui habituado assim, levando a sério a expressão "a conversar é que a gente se entende".
   Mas hoje a política está diferente. Diferente na sua essência, diferente no debate, diferente na sua visão ética e na atitude de quem a vive mais ativamente. Hoje a política é vivida ao sabor dos sentimentos do grosso da opinião, de forma extrema e ofensiva.
  Sou de esquerda moderada,  conhecida como centro-esquerda. Como qualquer outro militante de esquerda, partilho um conjunto de valores universais a toda a esquerda. Entendo que os valores Universais de esquerda se sobrepõem às exigências partidárias. Não existem "esquerdas", mas sim esquerda. O que existe são as linhas políticas diferenciadas pela forma como chegamos aos objetivos.
  Hoje é difícil encontrar esses valores universais de esquerda. Sem eles torna-se impossível chegar a qualquer consenso, porque os consensos exigem aproximações e pontos comuns, e esses pontos comuns são os valores universais da esquerda, e não os valores "regionais" que cada partido coloca ao dispor dos militantes. Partidos que cada vez estão mais intransigentes com as alternativas, fecham-se há volta das direções e decisões aceites pelo seguidismo. Isolam as vozes discordantes, ou no limite exigem a prática de "purgas" silenciosas. Saneamentos aos incómodos. Direções  aprovam os novos políticos e militantes que preencham os requisitos de ausência de liberdade critica ou de pensamento, sujeitos ao "fallow the leader".
   Vivemos com isso. Deixamos de conseguir formar políticos com a
 pensamento critico e passamos a formar políticos e militantes seguidistas, sem qualquer qualidade ou mérito. Aqueles que da esquerda há direita se limitam a aceitar as palavras dos líderes partidários e não aos valores ideológicos. Deixamos de debate, apostamos no politicamente correto e na ofensa, no grito, na ausência de respostas e de duvidas. O "modos operandi" é silenciar o perigo que é as alternativas, algo que bem argumentado não nos dá resposta. Entre os gritos e as ofensas tornamos a nova classe política incapaz de produzir. Somos benevolentes há forma como se tem feito política e como se geram novos políticos. 
  Os valores Universais estão cada vez mais ausentes do debate político. Cada a política se torna vitima do facciosismo partidário, ausente da ideologia, uma espécie de luta tribal pelos desejos do eleitor. Formas que acabam por trespassar para a própria sociedade que  vive na tormenta das redes sociais. Estamos descontrolados na forma como comunicamos uns com os outros, na forma intolerante como debatemos.
    A militância política está a tornar-se mais diretiva, assumidamente clubística. Severa com a própria sociedade, nada passa pelo crivo da ofensa. Da esquerda à direita, tudo termina em "ismos" e provocações degradantes. Entre a xenofobia, racismo, fascismo, ficamos incapacitados de gerar debates e consensos capazes de criar soluções para os problemas. Em vez disso estamos sistematicamente a apostar em atirar a sociedade para dramas isolados, generalizando todos, incluindo as instituições, em nome de preceitos políticos e não reais.
  As posições estão cada vez mais extremas, o espaço de manobra mais sensato está cada vez mais curto e mais ausente da política. Os partidos (nem todos) estão cada vez mais reféns da política de valores da direção, e militantes oscilantes conforme o vento sopra. Seguidistas seguros de pessoas, e não de ideologias. Partidos sem massa crítica, sem respeito pelos diferentes pensamentos, reféns dos estatutos que servem de garrotes silenciadores.
  É necessário um debate urgente sobre a democracia. É necessário maior capacidade de senso e alternativas. Cada vez mais há que puxar os valores da democracia, da esquerda e do livre pensamento. Como democrata e de esquerda, não posso admitir que a democracia fique entregue aos valores imberbes de uma massa sem pensamento crítico nem capacidade de promover alternativas a bem da democracia.
 Queremos futuros políticos de fibra, capazes de lidar com os inúmeros problemas que se vão aglutinando, precisamos de democratas a sério, gente de coragem que seja líder numa democracia saudável. Mas o que estamos a construir é políticos órfãos de valores, de ideais, que sem requisitos vão vivendo calorosamente no seio de direções partidárias com rumos diferentes. Estamos a criar gente incapaz de liderar, gente que não resista a colocar a democracia a respirar pela máquina. Sem mérito e sem qualquer fio de coragem. E isto é o futuro e o risco para a democracia. 

Tamanha hipocrisia

 


   O pedido de Hugo Soares, em pleno debate sobre os incêndios, é no mínimo insólito -"Senhor primeiro-ministro tem de pedir desculpas"- Tem? De facto tem! Mas o que exigir à oposição ? O que exigir a uma oposição que expressa "ter vergonha do que aconteceu"?  Não terá, também, o PSD e o CDS, pelos anos de governação de ambos, vergonha e por isso também pedir desculpas? Como é possível tratar com respeito forças políticas que não o tiveram com as vítimas?  Só podemos repudiar,  tratar com o mesmo respeito que a oposição teve com as vitimas quando as utiliza para o debate político. Sem qualquer vergonha, nem por utilizar a vitimas e a calamidade, nem por exigir aos outros responsabilidades quando também as tem.
    Não são sentimentos de pesar aqueles que PSD e CDS dizem ter, é mero aproveitamento político, ofensivo e repugnante. Aproveitamento de quem deseja o regresso ao poder, de quem vive incoformado com uma vitória tragada a derrota. Alguém que utiliza o sofrimento, que o deseja tanto quanto o caos no país. Pessoas a que os fins justificam os meios, e se o objectivo é para seu bem, e  de uma comunidade conservadora de interesses egoístas, que se faça muito barulho e manifestações silenciosas, que se faça moções de censura, que o governo caia de uma vez por todas.
    Ao jornalismo, que não é jornalismo, é uma indecorosa miséria.  Dos fogos retira polémica, das vítimas aproveita o ataque político. Faz de uma situação dramática o verdadeiro espírito do espetáculo mediático e da tendência política. Chamam comentadores da linha política de oposição decadente, aproveita a indignação, e quanto mais criticados mais tempo ocupam no pequeno ecrã. Que se "lixe" o respeito, sejamos hipócritas, o jornalismo não cede a sentimentos de luto. O jornalismo faz contas, usa e abusa do poder, entende estar acima do comum dos mortais. Os jornalistas são seres de tamanha moral, éticos e profissionais, dignos de um saber exclusivo e não admitem ser escrutinados, seja por quem for. Mesmo caindo no ridículo, isolados do resto do mundo, vão criando a sua própria realidade.
   As redes sociais, locais que reflectem a ausência  da inteligência, educação e civismo. Verdadeiros "animais"  acumulam nas caixas de comentários a ideia que existe gente que sente. Sentimentos de fúria para inércia de algo, de alguém ou de alguma coisa. Comportamentos que dão ideia de  especialistas do desconhecido. Gente de preceitos, moralidade e ética própria, muito pessoal. Dizem que sentem a dor e a angustia das vítimas, mas de dez a quinze linhas, apenas dedicam duas ou três às vítimas, o resto são apenas palavras perdidas no ódio e na falta de escrúpulos de quem se esconde na imunidade das redes sociais para destilar o ódio e a ressábia.
   Não existe sentimentos, nem pesares, de quem quer discutir política. Não são os estragos e o Portugal cinzento que move este sentimento tão urbano, tão desconhecedor do que é a floresta, do que é o pinhal, do que foram todos aqueles hectares que foram reduzidos a cinzas, é o mau estar, o ódio e a intolerância de quem entende que a democracia só é democracia quando a direita está no poder. Todo este alarido é oriundo do desconhecimento do que é Portugal rural, do que é são as florestas. É
 sempre tão fácil se sentir todos estes pesares como ter opinião sobre uma situação que é tão desconhecida. Não venham com a desculpa do momento - "eu conheço porque lá vivi/ passava férias/casa da minha avó era nas redondezas"- bastava que se dedicassem ao silêncio sobre tudo aquilo que nunca souberam, como urbanos, defender como jornalistas, eleitores ou responsáveis políticos.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Juízes que promovem a violência contra mulheres





  






   O Acórdão da relação do Porto recebeu uma resposta que me parece saudável. Além de uma vasta e "viral" indignação nas redes sociais, há acção legal com visibilidade para dar resposta à situação.
Além disso, existe também uma petição pública a este respeito e está convocada uma manifestação.

Este é um desenvolvimento surpreendente e bem-vindo. Não foi apenas este mesmo juiz quem impunemente colocou os seus valores monstruosamente sexistas à frente do cumprimento da lei no passado. Existem muitos casos, e se alguns já foram celebrizados (como o da "coutada do macho latino" em que a punição do violador é atenuada tendo em conta o vestuário provocante da vítima), outros mereceram a indiferença quase generalizada como este para o qual alertei em 2011 no blogue Esquerda Republicana.

Revoltante não chega para descrever. Existe uma dose de asco que a palavra "revoltante" não capta.
É bom saber que uma situação destas não passaria hoje despercebida. Ainda assim, quem tiver disponibilidade para comparecer na dita manifestação deve fazê-lo. É importante garantir que estes monstros pensam duas vezes antes de promover a violência doméstica.

Texto também publicado no Esquerda Republicana