segunda-feira, 11 de abril de 2016

Retrato de uma Angola

   Durante um crescimento económico exuberante de Angola, fomos escutando expressões, sensatas e exageradas sobre os benefícios que Angola teria com tamanho financiamento proveniente das suas matérias primas. Os mais exagerados determinavam que Angola compraria meio mundo, e o outro meio ficaria para mais tarde, quem sabe. Por qualquer coisa se dizia à boca cheia, "os angolanos chegam aqui e compram". Eram o crescimento da economia angolana a dar sinais positivos para a sociedade.
   O que aconteceu é que Angola, através do crescimento económico, criou uma fachada à verdadeira realidade do país. Desvirtuou a verdadeira face de Angola, criando expectativas que nunca corresponderam à verdade em nada . Depois de um pedido de ajuda financeira ao FMI, vai descobrindo cada vez os contornos reais do que é Angola, do estado dos serviços angolanos, da realidade social e a quem pertence o dinheiro que deveria ser distribuído equitativamente.
    Sair para Angola, de Portugal, com ordenado chorudo e cheio de regalias, era um principio bastante atractivo para muitos, que por cá, não conseguiam encontrar emprego. Se os mais sensatos falavam em 1500 a 3000€, os mais exagerados pronunciavam em voz alta que os angolanos teriam vencimentos, sem exagero, de quase 10.000€, a realidade dá nos outra visão. A verdadeira face demonstra que cerca de 70% dos angolanos vivem com dois dólares por dia, 1,75€. Quem consome é a elite, os 15% da população que vive em torno da elite de José Eduardo dos Santos.
    Enquanto Luanda assumiu o papel de capital mais cara do mundo, milhares de angolanos vivem na periferia, onde crianças vivem problemas graves de subnutrição. As lojas da conceituada Avenida da Liberdade viviam com as oportunidades de negócio criada por um determinada elite angolana, ao mesmo tempo  não existe um programa de vacinação infantil digno em Angola. Isabel dos Santos adquiriu o papel de uma das maiores fortunas do mundo, em coincidência na altura a Cruz Vermelha lançava um peditório para ajudar a combater a falta de alimentação e medicamentos em Angola. Falta de um plano de Educação, por outro lado, as ruas da cidade de Luanda enchem-se de viaturas topo de gama que se misturam com o lixo amontado. A crise da febre amarela e malária demonstrou que os hospitais vivem sem condições. Cadáveres são tratados, em plena luz do dia, no pátio das morgues, em plena rua devido a uma sobrelotação das morgues em Luanda. Crianças morrem em hospitais por falta de tratamento médico, e por falta de médicos e nem material clínico. No entanto, não deixa de ser curioso ser o país que consome mais champanhe per capita. Estranho, não?
   A queda do preço do petróleo atirou Angola para um problema grave de liquidez financeira. A situação grave que se vive no país demonstrou as lacunas que o país nunca resolveu, O crescimento económico baseada apenas no petróleo, desprotegeu a economia do país. Depois do golpe da queda dos preços, Angola corre contra o tempo enquanto os juros de empréstimos, em mercado secundário,  atingiram os 18%. Angola tenta evitar o colapso económico do país, demasiado fragilizado nos últimos meses. 
   No que toca a sua elite, José Eduardo dos Santos não pode evitar que entre em colapso. Vai ter de cortar nas regalias financeiras da sua turba.
    Possivelmente vamos ver menos angolanos a passear na Avenida da Liberdade, ou a arrefecer a aquisição de empresas em Portugal, principalmente a Comunicação Social. Tudo será fruto da falta de estratégia económica do governo de Angola, que decidiu deixar nas mãos da sua elite, e familiares, o controlo financeiro do país.

Publicado por Jorge Miguel Pires - LIVRE