sábado, 22 de julho de 2017

Apartheid ideológico




 Um momento de pouca tolerância eleva de imediato trincheiras para uma guerra de crenças e valores que cada lado tende a defender com as armas que possui. As barreiras criadas nas redes sociais levaram a uma nova de fazer valer as pretensões de cada um dos lados. Nesta clima não existe um meio termo. Ou estás com eles, ou estás contra eles.
  Os acontecimentos na esquadra de Alfragide atiçou as hostes. Ambos os lados afinam as armas para defender teorias do acontecimento. Uma investigação deu como certo que os seis jovens foram brutalmente agredidos pelos agentes da esquadra. Mesmo que não fosse a totalidade dos agentes, aqueles que assitiram e nada fizeram deveriam ter intervido, assegurando em nome da justiça a defesa dos direitos das vítimas e acima de tudo da instituição que sai manchada deste caso. Ao contrário, limitram-se a cruzar os braços perante tamanha brutalidade.
  A inspeção teve como base para a conclusão do inquérito depoimentos e provas que foram surgindo. O INEM (chamado para socorrer as vítimas) foi fulcral para chegar a uma conclusão mais forte. Conseguiu perceber que os depoimentos da polícia não faziam sentido. Seis jovens desarmados invadem uma esquadra da policia? Magoam-se na esquadra ao ponto de apresentar mazelas visiveis? Nitida demonstração de bastante violência? Não me parece que tenha sido difícil a Inspeção chegar a um veredito. 
  Este caso vem em altura que outro caso surg, quinze jovens agredem três agentes da PSP durante as festas no Catujal. Quinze jovens que incendiaram a índole tanto racista, como intolerante. 
  Duas situações tão próximas no tempo só poderiam terminar num ponto, a ascensão dos odios e desculpadas dos dois lados. Ambas as trincheiras extremaram posições, de tal forma que qualquer comentário ou publicação, termina com uma guerra verbal desproporcional e com troca de palavras acesas. Aos mais serenos a procura da ofensa acaba sempre por ser o caminho mais fácil.
  A existência de violência policial não é de hoje, é conhecida de longos anos, e até bastante aceitável por parte da sociedade. As longas pancadas de cassetete da polícia de intervenção são aplaudidas com frequência, o adepto do Benfica que foi agredido foi de agrado de alguns adeptos adversários e é costume se dizer "bem feita, o animal merecia" , quando alguém está a ser espancado. Por outro lado, alguns dos jovens com historial de desacatos vivem um clima de impunidade, o suficiente para enfrentar a polícia sem qualquer problema. 
   Esta situação merece maior serenidade. A aposta no extremismo não é a via mais razoável para serenar o assunto. O racismo existe, e não é residual. A forma como ambos os assuntos foram abordados nas redes sociais foi um verdadeiro barómetro do nível de racismo existente no país. 
   Por outro lado uma procura insistente de racismo leva a um resultado inverso no seu combate. Nas redes sociais uma intervenção fiscal da CP, prática perfeitamente normal por parte da empresa, foi aproveitada por alguém para tornar o caso em racismo sem qualquer base de prova. Ausência de agressões, mais utentes há espera de serem autuados, tudo normal numa fiscalização. No entanto quem captou a fotografia tinha claras intenções de se aproveitar da situação para gerar indignação no politicamente correcto. Este tipo de situações desvirtua totalmente a luta contra o racismo, atira sim, mais gasolina para um tema que arde sempre que vem ao de cima.
  Não se pode, em momento algum, desculpar a violência policial desproporcional. Também não se pode atacar a instituição num todo desvalorizando o trabalho dos seus agentes, pessoas capacitadas para o trabalho de proximidade e a real função da autoridade. Por outro lado não se pode apontar o dedo aos bairros sociais com afirmações sem nexo, e dar um pelo todo, nem podemos aceitar que seja só os afro-descendentes os causadores de toda a criminalidade juvenil.
Muito trabalho pela frente.








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