quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Desespero pós eleitoral


           Jorge Miguel Pires
           Economia




     A quatro de Outubro, na sede da coligação, o sentimento era de vitória. Os apoiantes tinham o governo formado. A derrota do PS colocava Costa e os Socialistas como uma bengala da governação. Este mandato não pouparia ninguém, seria o ultimo de Passos e havia que aproveitar para ajustar tudo aquilo que ainda não tinha sido feito. Ao PS restava limitar a ocupar os lugares na Assembleia, e aprovar, ou abster, as medidas impopulares de um governo de senda radical. 
    A coligação julgou ter a maioria. O apoio da comunicação social (aliado estratégico) foi essencial. Um país já entregue aos interesses externos preparava-se para avançar com a liquidação do que restava publico. Caixa Geral de Depósito e as empresas de transportes aguardavam a sua vez de ser privatizadas. Estava tudo a correr bem, e recomendasse.
   Todo o plano esbarrou nas decisões democráticas, Costa trocou as voltas aos resultados e acaba por "tramar" o projecto de Passos e Portas. Seguiu a vantagem única e aproveitou um período excepcional de uma maioria à esquerda e fez uma jogada de génio.
   Um cenário anteriormente proposto por Paulo Portas. conhecido pela coligação, mas nunca pensado por a mesma. Estava fora de questão outra leitura que não tornasse o PS subserviente. Nunca foi posta em causa outra  alternativa à governação de direita.  
     O pânico gerado nas sedes do PSD e CDS após António Costa avançar para uma coligação à esquerda demonstra o desnorte. PCP e BE mostram a disponibilidade de viabilizar um governo do PS, e a notícia caiu que mal nas hostes Sociais-democratas. O acordo com o PS ficou distante e impossível. 
   Portas e Cristas em pleno horário nobre aumentam o tom voz, deixam visível o nervosismo e a arrogância da expressão “quem ganhou, tem de governar”, atirando as regras democráticas para circunstancias e pessoas diferentes. Comentadores mais moderados e de esquerda desaparecem do cenário, aparecem mais comentadores de tendência favorável PàF. Gerou-se um efeito de pânico na comunicação social. Ninguém se atrevia a colocar um cenário da possibilidade de um governo de esquerda.
  A direita sem programa vê a impossibilidade de uma governação. Vozes Socialistas, como Álvaro Beleza e Assis, atacam a direcção de Costa em nome de um bloco central. Paulo Portas perde a noção do ridículo e acusa Costa de “sede de poder”,  o inigualável exemplo de ética politica da irrevogabilidade de ascensão. Paulo Portas que foi o protagonista do momento mais insólito de um governo.
   Passos pede  negociar, Costa negoceia, mas não aceita. Costa quer mudar o rumo da governação do país, virar à esquerda. Um governo que quebre a austeridade, ao contrário da linha governativa de Passos. 
   Os comentadores radicalizam o discurso, acusam o Bloco de anti-democrata. Falam de medidas não negociadas. A direita e os seus comentadores afectos, entendem que vale tudo para enganar o país. O extremo e chega às acusações ao PCP e a imposição do Marxismo-Leninismo no país. Recuam a 1975 no discurso politico. O PS, figura central da negociação, desaparece. A comunicação social ataca os partidos à esquerda. A argumentação é a destruição do país, saída da União Europeia, e o fim do Euro. O país com BE e PCP corre perigo. 
   Aguçam os nervosos discursos. Uma campanha de ataques baratos. A angustia eleva a democracia a decisões desportivas. Tratam a democracia como de um mero campeonato de futebol estivéssemos a falar. Relegam os exemplos oriundos europeus de governos formados por maiorias, deixando quem ganha na oposição. Passos e Portas querem uma decisão favorável de Cavaco, e que o PS a aceite o governo de direita e mantenha a tradição parando imediatamente as negociações com PCP e Bloco. Durão Barroso fala dos desejos dos eleitores do PS, afirmando que os mesmos não desejam um governo com o apoio do PCP e Bloco. O impedimento do PS formar governo tornasse uma corrida contra o tempo.
   Os acontecimentos dos últimos dias demonstra uma coligação, e apoiantes, desorientados. Com uma arrogância desproporcional e falta de educação nunca antes vista na politica. O desejo de governar leva aos argumentos mais  estranhos e rocambolescos. O desejo de um PS  a "pão e água", sem cultura de oposição, mantêm-se. Comentadores e jornalistas fazem um verdadeiro cerco ao largo do Rato. A comunicação social quer a PàF, contra vontade de uma maioria dos eleitores. 
  Que a PàF tome posse, que caia no dia seguinte. Que transforme em momento de glória a teimosia do senhor Presidente, do Expresso, do Observador, do PSD e do PP. PS deve saber o que está  próximo de formar governo. Estas negociações à esquerda não são comuns, nem tradição, fazem parte de um momento único, é a democracia a funcionar de forma natural. Os resultados foram muito claros, a direita ganhou as eleições, mas a maioria não quer a direita no governo.