segunda-feira, 14 de março de 2016

Esta Lisboa cada vez menos nossa

 



   "Os hotéis e afins (hostels e pensões) têm surgido de forma descontrolada. O executivo municipal tem aprovado, sem nenhuma noção de um futuro impacto na cidade. Construções descontroladas de edifícios, que albergam futuros hotéis, empurram a cidade para uma desertificação, apoiada por uma lei das rendas promovida por o antigo executivo. Assistimos impávidos a uma Lisboa cada vez mais turista, de construtoras e grupos hoteleiros, por outro lado, cada vez mais longe dos portugueses, mais longe dos Lisboetas. De repente, com tanto "empurrão" para a periferia, de quem residia no centro da cidade, existe um cheiro de "vergonha" que os Lisboetas existam em Lisboa."





   Lisboa está a abandonar o seu estilo de cidade histórica e anseia tornar-se em estância turística do sul da Europa. A forma acelerada com que é produzida uma  desertificação do seu centro histórico, trocando casas e pessoas por hotéis, hostels e pensões, é o  inicio de um processo lamentável que promete entregar a cidade ao turismo retirando os lisboetas.
    Três dos bares de diversão nocturna mais mediáticos do Cais do Sodré, Tokyo, Jamaica e Europa, preparam-se para fechar portas, em troca de uma suposta recuperação dos edifícios.  O motivo é a abertura de, mais, um hotel. Estamos a falar de uma zona, durante anos abandonada, que após a sua requalificação encheu o olho ao negócio do turismo. A Vila Martel, deveria ser um local de culto, casa de grandes nomes da cultura portuguesa, nomeadamente pintura, está em risco de demolição total, a Câmara Municipal estuda uma proposta para a construção de um edifício de 14 pisos que servirá.... de hotel. Dois edifícios em pleno Saldanha, não recuperados atempadamente , foram demolidos para dar lugar a um .... hotel. O mítico espaço da Ginginha, junto ao Rossio, encontra-se ameaçado por a construção de um.... hotel. Um pouco mais acima, junto ao Hard Rock Café, Restauradores, prepara-se para a construção de um.... hotel.
   Os hotéis e afins (hostels e pensões) têm surgido de forma descontrolada. O executivo municipal tem aprovado sem nenhuma noção de um futuro impacto na cidade, construções descontroladas de edifícios, para albergarem futuros hotéis, empurrando a cidade para a desertificação, apoiada por uma lei das rendas, desregulada, promovida por o antigo executivo. Assistimos impávidos a uma Lisboa cada vez mais turista, de construtoras e grupos hoteleiros, por outro lado, por outro, cada vez mais longe dos portugueses, mais longe dos Lisboetas. De repente, com tanto "empurrão" para a periferia, de quem residia no centro da cidade, existe um cheiro de "vergonha" que os Lisboetas existam em Lisboa.
    Não só os hotéis, e a sua descontrolada construção, são demonstração de uma cidade que não é dirigida aos portugueses. Os preços praticados em locais de eleição do turismo, afastam os portugueses do leque de clientes. Pequenos negócios junto ao rio Tejo, onde um final da tarde pode custar um dia de salário ao normal cidadão português. Os preços praticados não são dirigidos ao portugueses, mas sim, ao turismo que tem ocupado a cidade.
    Os bares sediados no Terreiro do Paço, durante a época de Verão, é um convite ao tipo que fala outra língua, e não a um português que tenha as suas despesas. Um misero sumo natural, que em qualquer café pode custar entre dois a três euros, num bar, esplanada, pode chegar, em pleno verão, a doze euros. Um café, dois euros e meio, e se quiseres uma mista, fica contente se não pagares nove euros.
   Estou a assistir ao retirar a cidade dos seus habitantes. Estou a assistir à saída de muitos, que residiram ali a sua vida toda, para dar lugar a hotéis e afins. Estou a assistir a uma Lisboa, que não é Portugal, a uma capital, que fala outra língua, a um problema, que no futuro pode ser penalizador para a própria cidade, e para o próprio turismo.
   Quando acabar este frenesim turístico, que vai ser de Lisboa? Que vai ser dos milhentos hotéis e afins espalhados pela capital? Que vai ser de um centro da cidade abandonado por Lisboetas e tomado por construtoras? Para quando fronteiras para entrar na cidade?
  Lisboa abandona os portugueses, ficam apenas memórias de uma cidade que já teve gente, comércio e vida, que hoje fala inglês, francês, espanhol ou alemão, que morre sem ninguém ocupando as casas, e sem comércio, que foi morto por as excessivas licenças para centros comerciais.
  Um dia Lisboa será fantasma de si mesma, enquanto o executivo municipal se entretém a licenciar hotéis, como já foram os 2024 existentes. O turismo é apenas um conto de fadas.








Jorge Miguel Pires
Licenciatura em Economia