terça-feira, 12 de julho de 2016

Brexit, o fim do caminho Europeu




    Sinceramente não sou favor do Brexit. Mas partilho a ideia de que este modelo de União Europeia não possui a génese do modelo inicial que levou à sua criação. Um dos principais motivos para a construção de uma Europa comum seria o pulverizar dos nacionalismos em nome de uma uma comunidade unida de povos e culturas dentro de um espaço politico, e geográfico, comum. Tal ideia esbarrou com o crescimento do neoliberalismo moralista do eixo alemão, na ascensão de funções burocratas sem legitimidade democrática, que assumem papeis acima de qualquer soberania democrática, construindo nas sociedades europeias o pensamento único da austeridade moralista. 
     Todos estes motivos, entre outros, abriram fendas perigosas entre os diversos países da União e entre os cidadãos a democracia e a União Europeia. O clima de instabilidade permanente entre as instituições Europeias e as diversas soberanias e os populismos misturados com sentimentos xenófobos, começam a quebrar os elos de ligação entre os diversos países, acabando por resultar na primeira saída
     Este resultado no Reino Unido abre vários procedentes, mas acima de tudo, cria novos problemas, talvez, o principal seja o início de um processo que vá por fim à união tal como a conhecemos, de um projecto que tinha tudo para dar certo, mas falhou por excesso de erros e intromissões alemãs.
    Cabe esclarecer que não foi, apenas, a perda de soberania que esteve em causa no Brexit. Uma campanha excessivamente populista teve o intuito de puxar o sentimento patriótico e xenófobo de muitos dos cidadãos do Reino Unido que olham para a imigração como um problema e não solução de nada. Juntando a política de austeridade praticada por David Cameroon, que estava demasiado em linha com a União Europeia, acabou por criar uma visão negativa sobre estar fora é melhor que dentro, aumentando o Eurocepticismo que muitos tinham sobre a União. Ninguém em terras da sua Majestade pretende dividir a sua soberania com Bruxelas, mas muito menos com Bundestag.
    A imigração e a desconfiança sobre a Europa foram o principal motivo para o Brexit. Os  "problemas" que Boris Jonhson e Nigel Farange exploraram para chegar ao seu objectivo, a saída. Foram argumentos populistas destilados por uma campanha xenófoba, estranhamente num país que possuiu um império representado em todos os continentes. 
    A vitória do sim não foi motivada apenas pela sua campanha demagógica e populista, mas também pela fraca campanha do Não, que para além das chantagem de Bruxelas, não possuiu um debate sério em torno dos prós e contras. Foi uma campanha fraca que não combateu o sentimento xenófobo, não combateu as demagogias e os populismos, apenas se limitou a dizer que era mau.  
     O que pode acontecer ao Reino Unido após o Brexit?
     Não me parece que o futuro seja promissor para nenhum dos lados. Enquanto Gales e Inglaterra parecem remar para o mesmo lado, a saída, a Escócia e a Irlanda acedem o desejo independentista há muito desejado. Com a saída do Reino unido da União Europeia, é mais que certo que a Escócia queira a sua independência, e a Irlanda a sua unificação com a Republica vizinha. No que toca à economia, o Reino Unido pode ter aberto a porta ao desmantelamento da City, aproveitada pela Alemanha que oferece as melhores condições em Frankfurt. A derrocada da Libra também parece não melhorar muito as previsões económicas e financeiras do Reino Unido. Esperam-se tempos conturbados.
   A saída do Reino Unido dos 28 é a construção do  caminho da sua desagregação. O Brexit gerou um mau estar entre as nações do Reino Unido, o que pode levar à sua divisão. Mas também na União Europeia não se esperam melhores dias. O efeito do Brexit pode gerar a desagregação da União Europeia. Entre democracias e pseudo-democracias, como a Hungria e a Polónia, o clima parece estar bastante complicado. Os nacionalismos agudizados pelo excessivo comportamento hegemonico da Alemanha parece surtir efeito nos partidos de extrema direita que vão crescendo a olhos vistos nos parlamentos Europeus, e no próprio parlamento Europeu. De Orban a Marie Le Pen, passando por Farage, os parlamentos nacionais começam a ter a imagem que tanto se combateu, e já chegaram a Bruxelas. 
   Neoliberalismo déspota, perca de respeito pelos povos, intromissão nas soberanias legitimas, abusos alemães, nacionalismos exacerbados, saídas preparadas e sanções premeditadas, esta é a imagem da actual União Europeia, que sem mudança, caminha para a sua desagregação. Se tal acontecer, muito podem festejar alemães e holandeses, afinal, em ambos os países, os ministros das Finanças foram os principais coveiros da degradação da União.

texto de Jorge Miguel Pires 

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