quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Imprensa, a arma da Coligação

  

   Por a sua sobrevivência, a imprensa é obrigada a tomar sempre partido de tendências. A desportiva, querendo ou não, tem uma tendência mais vermelha. O número de adeptos e simpatizantes do Benfica leva à venda de mais exemplares, ao contrário do Sporting ou Porto. No que diz respeito à actividade politica, não é diferente. Não pelo número de vendas, mas pelas tendências políticas de alguns jornalistas, accionista ou da própria Direcção. Ao contrário dos jornais desportivos, que a tendência tem por objectivo as vendas, os jornais diários, ou semanais, é uma tentativa de levar o leitor a ceder às suas tendências políticas, acreditando palavra a palavra, frase a frase, sem questionar. Em Portugal, essa forma de fazer jornalismo tornou-se mais óbvia perante o cenário da Coligação perder as eleições, durante a pré e campanha eleitoral.

Capas de jornais e colunas de opinião mera propaganda à Coligação, homenageando os feitos de um executivo forte com os fracos, e fraco com os fortes, e de forma agressiva, atacam o PS. A Coligação montava uma multidão artificial, e lavada em ombros chega para um título artificial do Expresso – “PàF em ombros”. O PS, pelo contrário, sofria ataques constantes. Ao líder, ao programa, à campanha. A Negrito e vermelhas, títulos visíveis à distância, e bastante aclamativo, o PS atacado por diversos títulos agressivos, Capas que anunciavam o clímax, desmentidas por textos vagos e sem argumentação forte. Não havia duvidas, a ideia era simples, derrubar o PS, no custe o que custar, doa a quem doer!
Os acontecimentos de Braga foram sanados de forma eficaz. A imprensa fez crer que os manifestantes eram, simplesmente, lesados do BES e o sindicato dos professores. Não valia a pena ver a reportagem na totalidade, as personagens alteram-se, a peixeira que se recusou a cumprimentar Passos, era lesada do BES, e não alguém que tem dificuldades, o homem da bancada da fruta, era sindicalista, e não o homem que viu o filho partir, a convite do Primeiro-ministro, e o casal que gritava – “vai te embora chulo” – eram professores, e não reformados com cortes nas reformas. A história ajusta-se de forma simples, enganando o leitor. Os jornais queriam-nos fazer querer que o povo estava com Passos, e aqueles rufias eram apenas mandriões dos professores e dos lesados do BES, até gente do Partido Socialista, quem sabe, nada mais. Ao contrário, a imagem de Costa era destruído dia para dia. Não haveria espaço para uma vitória do PS, é necessário atacar António Costa e atacar os socialistas. Entre as sondagens, firmemente criticadas, as noticias e o caso Sócrates, tudo, era motivo para levar o PS a uma derrota, e a imprensa sair vitoriosa. É ai que aparece o Bloco de Esquerda. Os miúdos lá do “canto” são bons, podem dar uma coça no PS.
A Catarina Martins foi dada a mediatização necessária para a fazer crescer a for do Bloco à esquerda. Catarina dominava, maltratava, atacava e ganhava os debates. Catarina enchia os auditórios, as praças, Coimbra e muito mais, Catarina era a gigante entre os lideres partidários. O mundo estava aos pés de Catarina Martins. O objectivo era que o Bloco impedisse o Partido Socialista de vencer, para que tal acontecesse, o desvio do seu eleitorado mais à esquerda do PS tinha que acontecer, e não só. O Livre foi o único partido à esquerda do PS que assumiu a sua vontade de se coligar, se houvesse capacidade eleitoral. O Livre pagou muito caro por esse sinal. Se aparecia era pouco, ou quase nada, o Livre foi varrido da comunicação social. Era tempo de salvaguardar o Bloco, acreditando que este nunca negociaria uma coligação, qualquer que ela fosse, com o PS. Já a Jerónimo de Sousa era dado o tempo de antena suficiente, a história e a clivagem entre PS e PCP falava por si, com o “novo comunismo” não era necessária preocupação. Bastava abrir um, ou outro, telejornal, com as críticas de Jerónimo de Sousa ao PS, e ficava resolvido.
Jerónimo e Catarina “traíram” a comunicação social, abriu-se a possibilidade de um acordo amplo à esquerda, porque é na esquerda que reside maioria absoluta. Jerónimo de Sousa no dia cinco de Outubro, dá um murro no estômago da imprensa. Depois de duas vitórias, a derrota do PS e a não eleição do Livre, a imprensa olha para uma negociação à esquerda que complica as contas da Coligação PàF. Não podia ser, mas o alívio vinha da Rua da Palma, nas redacções acreditava-se que o Bloco não iria alinhar nisto, até chegar a dia seis. O Bloco coloca em cima da mesa um entendimento possível com o partido Socialista. Cai por terra a luta desenfreada da comunicação Social, que tanto fez para que o PS não conseguisse atingir a possibilidade de governar, apoiou a PàF e os partidos à esquerda do PS, trouxe Sócrates para a campanha, atingiu o PS em todos os seus flancos, mesmo assim o PS tem possibilidade de chegar a governo?
Retiram-se comentadores de esquerda, fala-se num acordo frágil e sem possibilidades de vingar. A Catarina passa de a Grande, para a extremista, renasce os mitos pós Abril, como a história dos comunistas querem comer as criancinhas. Nuno Melo e Paulo Rangel são chamados de canal em canal, o Observador ganha espaço em todos os programas onde a politica seja o assunto, e em todos os canais. De David Diniz na TVI a Helena Matos e José Manuel Rodrigues, todos eles têm espaço mediático. A esquerda, mais representativa, perde o espaço de debate. Fala-se de mercados, dos parceiros Europeus, do cumprimento do tratado orçamental. Ameaça-se o eleitorado, cria-se o pânico. A comunicação social será, sem dúvida a maior oposição a uma negociação entre a esquerda.
Do caso Sócrates aos ataques furiosos sobre o programa Socialista, passando pelo apoio à esquerda do PS, os truques da imprensa tiveram efeitos negativos durante a campanha, a democracia foi limitada por capas de jornais e opiniões sucessivas. As redacções serviram de sedes partidárias à Coligação, os jornalistas distribuíam propaganda em versão noticia e opinião, escrita e falada. A imprensa entrou nas eleições não em modo idóneo, foram ao limite da tendenciosidade da linha política da Coligação. Perderam, e não por “poucochinho”.
Com um possível governo PS suportado por a Esquerda, prepara-se o maior raíde de notícias. Ataque cerrado contra o Largo do Rato, contra os Ministros, e contra os partidos da esquerda. A imprensa vai minar o terreno entre o PS, Bloco e PCP. Está em curso um PREJC (processo revolucionário jornalístico em curso). As redacções deixam de ser sedes da PàF e tornam-se o seu “braço armado”. As armas são notícias, as letras balas, e vão atingir até próximo executivo cair. A imprensa prepara-se para o maior ataque a um governo em democracia, eleito de forma democrática, e com toda a legitimidade de governar, e não vai baixar enquanto não conseguir derrubar. 



Sandro Rodrigues 
Trabalhador independente
Activista pelos direitos do Trabalho