domingo, 27 de dezembro de 2015

São José e Santa Maria, salve-se quem puder

  





  "Tudo o que leio e ouço é sobre questões técnicas; são os médicos de determinadas especialidades que se recusam trabalhar ao fim de semana pelo dinheiro que o estado lhes dá, são os enfermeiros que apanharam a boleia das queixas dos médicos pelo salário que também recebem, até ao extremo de se dizer que houve negligência e de ninguém ter dado importância ao caso, afinal era só mais uma vida por um fio, nada de mais, um dia normal, portanto."

  Nos últimos dias muito se tem ouvido e dito sobre o caso do jovem de 29 anos que morreu no hospital São José, na sequência do rebentar de um aneurisma cerebral e não ter sido operado a tempo. Muitas acusações, muitas demissões, muita roupa suja tem aparecido em toda a imprensa.
  Tudo o que leio e ouço é sobre questões técnicas; são os médicos de determinadas especialidades que se recusam trabalhar ao fim de semana pelo dinheiro que o estado lhes dá, são os enfermeiros que apanharam a boleia das queixas dos médicos pelo salário que também recebem, até ao extremo de se dizer que houve negligência e de ninguém ter dado importância ao caso, afinal era só mais uma vida por um fio, nada de mais, um dia normal, portanto.
  Depois, a parte gira pintada de negro, é ver médicos e enfermeiros numa guerra de crianças para ver quem ganha a culpa: “a culpa foi vossa porque avaliaram mal o caso e não procederam como deve ser”, “naa naa, a culpa foi vossa porque se recusam a trabalhar ao fim de semana por menos dinheiro”, “ah mas vocês também reclamam do mesmo!”, “mas isso não vem para o caso em questão!”. É atirarem a batata a escaldar a ver quem sai mais queimado, nada de novo também, portanto.
   Mas, na minha opinião, acerca deste caso (e de tantos outros que nunca se falaram), falta falar de um aspeto, se não o mais, muito importante; o respeito pela vida humana. Mais do que salários mal pagos, mais do que cortes por parte do Estado, mais do que falta de profissionais de saúde, existe ainda muita falta de respeito para com a humanidade.
No meu parecer, a medicina tornou-se uma profissão onde o que mais importa são os tostões que caem na conta bancária porque, coitadinhos, trabalham demais, sentem-se cansados, com responsabilidades acrescidas e são muito mal pagos pelo Estado. O que há-de dizer uma empregada doméstica que mal tem férias, recebe um salário miserável, mal vê os filhos só para garantir que lhes dá o que comer. Ah mas ela não estudou tanto como os médicos e enfermeiros, é verdade, mas também se cansa e se farta das "merdices" do Estado, com a mesma legitimidade que um licenciado.
  É verdade que, hoje em dia, o Governo entra-nos pela vida adentro e rouba-nos até a dignidade. Mas também é verdade que por trás da profissão de médico há um juramento, e esse, deveria ser para vida e não só para o dia da fotografia que marca o término do curso.
Portanto, mais do que "lamechices" de salários mal pagos e horas extraordinárias, existe a obrigação de salvar vidas, porque se não for para isso, aposentem-se senhores.
  Aos médicos e enfermeiros do São José, do Santa Maria e desses hospitais afora onde também existe incompetência, eu tenho umas palavrinhas para vos dizer. Este natal, vocês puderam sentar-se à mesa com os vossos, puderam abraça-los, presenteá-los, e mesmo que alguns tenham estado de serviço, terão sempre a sorte de voltar para casa e ter quem vos ama à vossa espera. O que vocês não sabem é que, neste natal, há uma cadeira vazia à mesa, há um presente que sobrou na árvore, há uma voz que nunca mais se vai ouvir, há uma ausência que nunca poderá ser substituída, tudo porque só vos pagam 3 ou 4€ à hora.
Neste natal, há uma mãe que, em vez de se sentar no sofá à lareira e agradecer por ter o seu filho são e salvo, vai-se sentar no sofá com a cabeça entre as mãos a imaginar que está a viver um pesadelo, uma mãe que dificilmente voltará a sorrir tão cedo, uma mãe que morrerá um bocadinho, todos os dias, durante o próximo ano que se avizinha.
  Enquanto na passagem de ano vocês comerão as 12 passas e pedir um desejo para cada uma, esta mãe vai pedir o mesmo desejo em cada 12 passas. Eu sei que vocês não vão pensar nisto, afinal foi só mais uma vida que se foi, mais virão. Mas espero que um dia o tiro não vos saia pela culatra, afinal, a vida é um sopro e nem médicos nem enfermeiros escapam disso.
  Espero também que um dia, um qualquer colega vosso, não se lembre de fazer a mesma birra quando um qualquer filho vosso estiver com a vida por um fio, e vocês sem poderem fazer nada porque, afinal, não é a vossa especialidade.

  "Karma is a bitch", nunca se esqueçam disso, um dia pode-vos dar jeito, quanto mais não seja para pedirem “desculpa”. Porque errar é humano, ser estúpido é outra coisa. 




Márcia Ladeira
Licenciatura em Psicologia